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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Um conto de minha autoria (I)


Frio, sombras, música e devaneios

Playlist sugerida para acompanhar a leitura deste conto :
  1. S.O.S. / ABBA. 
  2. Sabes a Chocolate / Menudo. 
  3.  Boys / Sabrina. 
  4.  Sacrifice / Sinéad O’Connor. 
  5.  Safe From You / Frente! 
  6. Sailing / Christopher Cross. 
  7. Salvation / The Cranberries. 
  8. Same Thing in Reverse / Boy George. 
  9. Sandra Rosa Madalena / Sidney Magal. 
  10. Sangue Latino / Secos e Molhados.


Volumosas gotas de chuva caem do céu sobre a terra hoje.  Cor de cinza: solidão.

Mais uma vez saio bem cedo de casa para garantir o ‘pão nosso de cada dia’. O que não deixa de ser um tanto irônico é que estou em jejum, já que a correria do dia-a-dia não me deixa saborear sequer um café da manhã decente. Só um velho pão com margarina e um essencial gole de café preto.

A barriga ronca enquanto, desolado, observo a paisagem ao redor. Hoje, pelo menos, tive a sorte de conseguir sentar dentro do ônibus sempre lotado para o trabalho.

As ruas de São Paulo estão imersas no dilúvio de sempre. Próximo à Marginal Tietê não haveria de ser diferente. Ano após ano, promessas após promessas vindas dos políticos incapacitados e a situação não melhora. Penso seriamente que daqui a alguns anos passaremos a andar de barcos pelas ruas dessa cidade.

“O que foi a minha vida todos esses anos?” Pergunta inevitável que nos assalta em dias assim, onde achamos, por antecipação, que tudo está fadado ao fracasso pelo resto do dia. Coração em frangalhos, tento ocultar lágrimas que começam a se formar em meus olhos para saltarem, sem permissão, em meu rosto.  Melhor ligar meu MP3 e tentar me distrair, enquanto não chego à segunda condução do dia. A segunda do total de seis que pego ao dia para me locomover pela grande metrópole afogada.

Já aviso de antemão que minhas playlists costumam ser bastante exóticas. Algum observador interessado diria que meu gosto é eclético, mas prefiro dizer que sou apenas seletivo em relação às canções que ouço. Geralmente são canções que me fazem feliz, que me fazem triste (masoquismo detected) e que me trazem ótimas lembranças de momentos de alegria cada vez mais furtivos em minha existência mundana.

A primeira canção é ‘S.O.S’, do ABBA e, realmente: Salvem minha alma! Destino, seja generoso e mande-me um sueco alto, definido, loiro e bonitão, com olhos cor de céu para me carregar para bem longe daqui e que me faça dizer, a plenos pulmões que a vida vale mesmo a pena, mesmo que o mundo inteiro e a realidade insistam em me dizer não.

Já pensou se isso realmente acontecesse aqui e agora? O sueco chegando num lindo cavalo branco? Larga de ser louca, bicha, ele provavelmente correria o risco de ser arrastado pela correnteza aí fora. Sem falar que contos de fadas jamais acontecem no plano da realidade. E fico pensando qual a serventia deles afinal, se os padrões que eles nos inspiram são demasiados elevados para nossas pobres vidas.

Nova canção no player: ‘Sabes A Chocolate’, do Menudo. Ai, céus, chocolate não! Tô com fome! Sem falar que o médico me proibiu de comer chocolate em demasia por causa das minhas espinhas. Não chegam a ser um pesadelo em forma de crateras na minha face, mas Dr. Salomão disse que eu não facilitasse com a coisa. Dos males o menor.

O Menudo... Nossa, por onde andam esses caras? Ricky Martin foi bastante corajoso ao assumir sua homossexualidade em público um dia desses. Pudera: rico, bonito, independente e bem-sucedido, não tem nada a perder. Só algumas fãs homofóbicas. Quanto a mim... sem comentários, pelo menos por enquanto.

O ônibus finalmente chega à estação do Metrô. E lá vamos nós para o empurra-empurra de costume. Digo ‘nós’ não porque eu seja mais de um espírito dentro de uma pessoa só ou esteja acompanhado. É coisa de costume, sei lá.

Dentro do vagão, o alívio de conseguir lugar para sentar outra vez. Desencorajados talvez pela chuva ou por algum obstáculo de natureza aquática em seus caminhos, muitos paulistanos ficaram em casa ou então ficaram retidos em alguns cantos críticos da cidade.

No player, agora, toca ‘Boys’, de uma obscura cantora italiana ‘one hit wonder’ chamada Sabrina. Em minha mente imediatamente vem a imagem de uma mulher morena muito bela e voluptuosa dentro de uma piscina, em dia de Sol, cercada de belos rapazes por todos os lados. Ah, que inveja! Um dia de sol e o descanso na beira de uma piscina cairia muito bem agora. Quanto aos rapazes, um só me bastaria, sabe? “O” rapaz. Aquele que os contos de fada fajutos nos ensinam a ser o ideal, o único.

Até o momento só encontrei sapos disfarçados de príncipes por aí. E bem poucos, dadas as circunstâncias que envolvem a minha vida. Hoje não quero me aprofundar muito nessas questões.

‘Sacrifice’, canção famosa de Elton John na voz de Sinéad O’Connor começa a tocar exatamente quando preciso fazer o próximo “sacrifício” do dia e descer na próxima estação, para passar para outra linha de metrô. Céus, como a estação da Sé está lotada hoje, mesmo em dia de caos.

Sinéad assumiu também sua homossexualidade depois de passar pelo diabo na vida. Grande mulher. Pena que a mídia já não lhe dê tanta atenção e destaque desde que rasgou a foto do Papa João Paulo II naquele famoso programa de TV americano. Anos se passaram desde o incidente, o Papa já até morreu, mas as pessoas não esqueceram do acontecido.

Papa. Isso me lembra a desfeita que Milena me fez mês passado, não me convidando para ser padrinho de seu filho, justamente eu que sou (ou fui?) seu melhor amigo. Mas quer saber? Deixa para lá! Desde os treze anos eu não freqüento uma igreja mesmo. Nem sei mais que religião eu sigo. Só sei que acredito em Deus e nada mais.

Enquanto espero o metrô chegar, ‘Safe From You’, do Frente!, sucede ‘Sacrifice’, cantada por Sinéad. Confesso que gostei, mesmo não tendo a ouvido antes.

Olho ao redor enquanto escuto a canção. Hora de flertar, mas isso se alguém especial resolver notar que existo, que estou aqui e que nesse peito bate um coração. Mas tudo o que vejo são caras mais desanimadas que a minha ou então seriamente preocupadas ou compenetradas em seus pensamentos mais íntimos. É, não foi hoje que achei o príncipe encantado. Sabe-se lá quando será...

‘Sailing’, de Christopher Cross. Novamente a visão de um dia ensolarado retorna, mas desta vez em alto-mar e dentro de um iate. Porém as cenas, desta vez, não são nem um pouco românticas. São lascivas e involuntariamente, começo a ter uma ereção. Ops! Operação pasta de trabalho para cobrir partes expostas já!

Dez longos minutos se passam e nada do metrô. ‘Salvation’ dos Cranberries, a canção após ‘Sailing’, já está no fim e a salvação não chega. Provavelmente algum problema na linha tornou os veículos mais lentos. Ô saco!

Ponho ‘Salvation’ mais uma vez para tocar, mentalizando “salvação” repetidas vezes até que finalmente um trem chega. Embarco, aliviado. Hoje eu não posso me atrasar. É dia de festa no trabalho.

‘Same Thing in Reverse’, do Boy George começa a tocar. Música alegre, com violinos ao fundo. O sentimento de solidão que outrora me acompanhou até agora está se dissipando. Possa ser que este dia seja bom, afinal. Quanto a Boy George, quando me lembro dele, é inevitável pensar que nesta vida, beleza não é tudo, como muitas pessoas pensam. Outro dia mesmo vi uma foto recente dele e sequer lembra a figura imponente, bela, majestosa e andrógina que foi. Mas o amo pelo que é, por suas músicas e não pelo que ele foi ou deixou de ser.

O ápice da minha euforia em franca ascensão é coroada com a audição de Sandra Rosa Madalena, de Sidney Magal, outro cantor que, ao lado de Boy George, é “muso” absoluto. Como não sorrir ao lembrar das inúmeras vezes em que corria para a frente da TV na infância e tentava imitar seus passos de dança?

Chego na porta de meu trabalho com dez minutos de atraso e Sangue Latino, dos Secos e Molhados, já está em franca reprodução em meu player.  Canção curta. Logo estarei na labuta e as canções serão esquecidas. Pelo menos por algumas horas. Hora de voltar a realidade e fazer valer o sangue que corre em minhas veias. Afinal, apesar de tudo e dos pesares, existe ainda a vida.

Conto originalmente publicado no site da revista eletrônica Verbo 21
sob o pseudônimo de Carmelo Ameno. Abril de 2011.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Resenha: Calígula


Um romance histórico até interessante

Allan Massie, para quem não conhece, é um escritor estrangeiro relativamente conhecido na arte de escrever livros de fundo histórico em versões romanceadas. 

Pela sua (muito) fértil imaginação já foram retratadas entidades como o legendário rei Arthur, de Camelot, o sábio e real rei Carlos Magno, o passional rei bíblico David, a voluptuosa rainha Cleópatra e, como não poderia deixar de ser, quase todos os imperadores romanos de maior relevância para a história, como César, Tibério, Nero e claro, Calígula.

Neste livro, Massie dá vida a Lucius, um oficial do estado-maior veterano que conviveu com Calígula desde mais a tenra infância, por ser amigo do pai do imperador, o valente general Germânico e também de seu avô, o libertino e temperamental imperador Tibério. Por meio dos olhos deste personagem tomamos conhecimento de toda a trajetória desta figura histórica altamente controvertida, retratada unanimemente de forma negativa em filmes e principalmente e, livros de História Geral.

Incentivado por Agripina, tia de Calígula e mãe do pequeno Nero, Lucius começa a escrever a biografia do falecido Gaio (verdadeiro nome de Calígula), imperador-comandante do Império Romano, logo após a sua morte de forma trágica pelas mãos de sua guarda pessoal. 

Acompanhando os manuscritos de Lucius, descobriremos então que em apenas quatro anos de governo, Calígula  reuniu mais poderes do que seu mais famoso antecessor, o ditador Júlio César. Mas seria possível contar a história do imprevisível, louco, devasso, cruel e sedutor Gaio sem desnudar a história de Roma e da família imperial? Esse é o fio condutor do romance e, sem qualquer sombra de dúvida, o autor demonstra então ter um conhecimento quase que ilimitado sobre a história de Roma e de seus senhores, quando escreve.  Narrado em forma de biografia romanceada, o livro apresenta personagens e fatos reais, combinando assim conhecimento histórico com uma já citada fértil imaginação do autor. E sua ousadia é tanta que ele até questiona a versão da maioria dos historiadores e filósofos a respeito desse personagem símbolo da decadência romana. 

Particularmente achei um livro um pouco insosso, ainda mais quando comparado com o polêmico filme homônimo do cineasta italiano Tinto Brass que foi filmado na década de 1970, estrelado por nomes como Malcolm McDowell, Peter O'Toole e Helen Mirren.  Mas, mesmo assim, achei interessante a forma como Massie narrou a história. E para uma primeira leitura de suas obras, foi até interessante.

Agora, cabe a você decidir se quer ler ou não. Momentos fortes e picantes até existem na obra, mas não são muitos. O mais interessante, portanto, é tomar conhecimento da linha de pensamento do autor, muito bem expressa por meio de seus personagens. 

Recomendo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Resenha: Procura-se um vampiro


Um novo amor para Sookie?


Procura-se um vampiro é o quarto livro das crônicas de Sookie Stackhouse, escrito por Charlaine Harris, e de longe o melhor de todos até o momento, embora eu ache que ainda falta um pouco mais de empolgação e evolução à trama, que ainda está morna.

Em Morto até o anoitecer, primeiro livro da série, conhecemos Sookie, seu dom para telepatia, encrencas e a sua nova rotina ao iniciar namoro com um vampiro suspeito, em potencial, num caso de assassinatos em série que andam acontecendo na pequena cidade onde ela e sua família vivem, Bon Temps, Louisiana, Estados Unidos.

Em Vampiros em Dallas, o segundo, vemos Sookie e seu namorado Bill Compton em uma das principais cidades do Texas às voltas com investigações sobre uma seita de fanáticos religiosos que querem a eliminação de todos os vampiros do mundo, mesmo estes tendo saído da obscuridade desde que cientistas japoneses, munidos de grande astúcia, inventaram o sangue sintético que lhes garante a sobrevivência sem que precisem matar pessoas para saciar a sede.

No terceiro livro, Clube dos Vampiros, Bill desaparece misteriosamente em uma missão secreta e cabe a Sookie encontrá-lo, mesmo que seja preciso a sua involuntária infiltração no meio de um dos principais pontos de encontro das criaturas sobrenaturais que infestam os Estados Unidos, o Club Dead, e ainda por cima com a ajuda de mutantes, duendes, um lobisomem que mexe com a sua libido (o destemido Alcide Herveaux) e o chefe de seu namorado (o sedutor e aparentemente perigoso vampiro Eric Northman).

Agora, neste quarta aventura, encontramos uma Sookie fragilizada pelos acontecimentos ocorridos no terceiro livro, em especial com o rompimento definitivo de seu namoro com Bill. É véspera de ano novo e nossa heroína está firme em novas resoluções para a sua vida que não envolvam assassinatos, espancamentos e sangue derramado ou sugado.

O que ela não esperava, entretanto, já na volta para casa da festa de ano novo em que participa no seu trabalho, era encontrar na estrada um Eric Northman completamente desnorteado, desmemoriado e nu em pêlo, para seu mais secreto deleite. Piedosa como sempre (e um pouco excitada), mesmo que seu objeto de pena (e desejo) seja uma imprevisível máquina de matar, Sookie leva Eric para a sua casa onde ele se torna seu hóspede por tempo indeterminado, pois sondando posteriormente os motivos que o levaram até ali, ela acaba descobrindo que a cabeça dele foi posta a prêmio por um perigoso clã de bruxos recém-chegados a Louisiana e que querem tomar conta do poderio sobrenatural no local, também conhecido como Área 5 e onde Eric é o xerife.

Indo contra as suas resoluções de ano novo, Sookie decide ajudar Eric a recobrar sua memória e também ajudar a comunidade sobrenatural da Área 5 a combater os indesejáveis invasores. Mas desta vez Sookie não poderá mais contar com a outrora certeira ajuda de Bill em suas aventuras, por conta do rompimento da relação entre eles e também por causa da mais nova viagem secreta de Bill, sob as ordens da Rainha Vampira da Louisiana, à América do Sul.

Outros acontecimentos que Sookie não poderia prever no decorrer da história são o súbito e misterioso desaparecimento de seu irmão Jason e os sentimentos novos que começa a nutrir por Eric. Mas não o Eric debochado, rude e frio que ela conhece e despreza, mas um Eric novo, mais amável, protetor, carinhoso e provavelmente mais verdadeiro em sua essência, que talvez jazia adormecida nele ao longo dos anos, o que é de se estranhar, já que vampiros não possuem almas.

Apesar das histórias mornas até o momento, é muito difícil não se apaixonar por Sookie e seus amigos. Talvez seja isso que ainda me mantenha preso a estes livros, sempre ansiando pelo lançamento de novos títulos da série, que nos Estados Unidos já totalizam dez.

Se você é fã, já sei que irá correndo atrás do seu. Se não é, esqueça um pouco seus preconceitos literários e procure conhecer as crônicas de Sookie, nem que seja por mera diversão.

E até a próxima resenha!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Resenha: Almanaque dos Seriados


Excelente opção para os nostálgicos


Nos últimos anos, em terras brasileiras, houve uma abundante e variada proliferação de almanaques que abordam os mais diversos temas, como televisão, novelas, cinema, quadrinhos, fusca, futebol, anos 70, 80, 90... E como não poderia deixar de ser, os seriados de TV teriam de ter o seu espaço também.

Verdadeiras manias nacionais, os seriados encantam inúmeras gerações Brasil afora, sejam os mesmos nacionais ou estrangeiros. E neste Almanaque dos Seriados, temos a oportunidade de recordar muitas produções que marcaram época ou que já caíram no esquecimento.

Diferente de seu trabalho posterior, o Animaq - Almanaque dos Desenhos Animados, que deixou um pouco a desejar, Paulo Gustavo Pereira faz um trabalho irrepreensível com este livro, na verdade sua estréia como autor. Nele você vai encontrar alguns seriados que muitos curtiram na infância, como o japonês Nacional Kid e o nacional Vigilante Rodoviário, sem falar em outros consagrados como Agente 86, Magnum, a Ilha da Fantasia, As Panteras e outros mais recentes como CSI, Barrados no Baile, Law & Order, Smallville, Sex and The City, Friends.... Com capítulos divididos por décadas, de 1950 a 2000, foram selecionadas as séries mais populares, com suas histórias, bastidores, dados sobre atores, produção e muitas outras curiosidades. 

Se eu fosse você não desperdiçaria a oportunidade de embarcar no túnel do tempo e recordar momentos marcantes que você um dia teve em frente a TV. Vamos nessa então?

terça-feira, 3 de maio de 2011

Resenha: Cinzas do Norte


Um livro denso, poderoso


Cinzas do Norte é o  terceiro romance de Milton Hatoum e de longe aquele que mais gostei. Como confesso fã e conterrâneo que sou do autor, já li quase toda a sua obra, à exceção de sua estréia, "Relato de Um Certo Oriente", e espero, ainda este ano, poder preencher esta lacuna incômoda que existe entre minhas leituras, até porque ando sentindo mesmo um pouco de falta da forma peculiar com que Milton Narra seus romances.

Alguns leitores de primeira viagem ou desavisados podem estranhar, mas em algumas de suas obras, há uma grande variedade de pessoas que narram as histórias. Umas vivas, outras mortas, algumas conhecidas, outras desconhecidas. Não é todo mundo que se dá de imediato com o estilo do autor, como percebo em inúmeras resenhas pela internet afora. Porém, recomendo com louvor a adesão de novos leitores ao seleto fã-clube de Milton.

Mas voltando ao Cinzas, o mesmo relata a gênese, o desenvolvimento, a culminância e a conclusão de uma longa revolta e do esforço de compreendê-la, já que a mesma não é nenhuma guerra ou batalha no plano físico, mas no psicológico de alguns personagens da trama. 

Na Manaus dos anos 50 e 60, dois meninos travam uma amizade que atravessará toda uma vida. De um lado, Olavo, o Lavo, narrador, menino órfão criado por dois tios sem eira e nem beira, que cresce à sombra da poderosa família Mattoso; de outro, Raimundo ou Mundo, filho único deste referido clã, saído do ventre de Alícia, uma mãe jovem e  passional e herdeiro (literalmente) do aristocrático Trajano Mattoso. 

No centro das ambições de Trajano está a Vila Amazônia, palacete junto à cidade de Parintins que é a sede de uma plantação de juta e também o pesadelo máximo de Mundo. Dotado de inclinações artísticas e propenso a  investigar suas mais profundas angústias, o jovem engalfinha-se numa constante luta contra a autoridade paterna, com o lugar onde vive e de onde quer voar, a moral dominante da época e  também com os militares que tomam o poder em 1964 e que desencadeiam uma vertiginosa destruição à cidade de Manaus, outrora conhecida como a "Paris dos Trópicos", graças ao período áureo da borracha. 

Na luta que culmina em uma inevitável fuga de tudo que o oprime, especialmente do pai, Mundo amplia o seu universo particular, ganhando o mundo afora no decorrer da década seguinte. E na distante Europa, onde se instala, manda ocasionais sinais de vida para Lavo, que ajudado pelo pai de Mundo, se torna advogado, mas ainda preso à terra natal. 

Vários desdobramentos completam a narrativa de Cinzas do Norte. São versões e revelações que se cruzam ou desencontram, dando à história uma singularidade única, onde o leitor provavelmente se identificará com o sofrimento de Mundo e com suas tentativas de se firmar na vida. Impossível ficar indiferente aos seus dramas pessoais.

Sem falar que na trama existe um grande segredo que vale a pena ser desvendado. Portanto, convido você, leitor, a mergulhar de corpo e alma nas páginas desta obra densa, poderosa e que te prende. Ela realmente vale a pena.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Resenha: A senhora das velas


Piegas!

Walcyr Carrasco tem muitos méritos em sua carreira. Caso o nome lhe soe familiar, ele é autor de grandes sucessos na área de teledramaturgia, tais como as novelas "O Cravo e a Rosa", "Alma Gêmea", "A Padroeira", "Chocolate com Pimenta" e a obra-prima "Xica da Silva", na extinta TV Manchete (onde usou o pseudônimo de Adamo Angel).

Porém o sucesso que permeia suas produções na telinha não o acompanhou nos livros, em especial esse A senhora das velas. É um livro tão cheio de clichês que você facilmente descobre o que vai acontecer na página seguinte. Foi o primeiro livro dele que li e definitivamente não gostei, mesmo estando dentro de uma linha de realismo fantástico, gênero que aprecio muito especialmente quando leio as obras de Gabriel Garcia Márquez.

Basicamente, é a história de um menininho pobre chamado Felipe que vivia feliz com os pais em um terreno arrendado em uma fazenda e que acabam morrendo por conta de uma desgraça inesperada. Expulso da casa onde sempre viveu pelos patrões de seus genitores, Felipe vai para a cidade grande em busca de uma tia rica que sabe que possui, mas que nunca conheceu pessoalmente. Trata-se de uma mulher amargurada, ressentida e muito difícil de se conquistar, quando finalmente a conhecemos e aqui, é inevitável pensarmos imediatamente na tia Polly, do romance Pollyanna, de Eleanor H. Porter.

Mas, graças à ajuda de Nossa Senhora (com direito a efeitos especiais com muita luz de velas) tudo se resolve.Como se na vida real isto realmente acontecesse, não é?

Para quem acredita em crendices e milagres, este livro é um prato cheio. Para mentes inteligentes e esclarecidas, um suplício. Portanto, você decide que partido tomar se resolver ler esta obra.

Lembrando que ganhei a mesma de presente...

domingo, 1 de maio de 2011

Iniciação à leitura


"Criar o hábito da leitura já perdeu o sentido. Queremos que as crianças leiam por prazer ou por costume?"


CRIANÇA PODE adorar livros e histórias, desde que os adultos não atrapalhem. E como temos atrapalhado o que poderia ser uma verdadeira paixão pelos livros!

Ler é bom, precisamos formar leitores, a vida sem a literatura não teria graça, temos de incentivar o hábito da leitura nas crianças e nos jovens etc. Afirmações como essas brotam da boca de pais e de professores assim, sem mais nem menos.


Temos gosto em pegar frases e repeti-las muito, até que elas percam seu sentido, não é verdade? Assim aconteceu com essas e outras afirmações que tratam da importância da leitura na vida dos mais novos: tanto fizemos que conseguimos esvaziar o que elas dizem.
Primeiramente quero falar dessa expressão horrorosa: "Criar o hábito da leitura". Ah! Vamos aproveitar e lembrar outra semelhante: "Criar hábito de estudo".
Nós queremos que as crianças tenham prazer com livros e histórias ou queremos que adquiram um hábito?

Leitura, tanto quanto estudo, não deve ser tratada assim. Um hábito se instala e pouco -quase nada- acrescenta à vida de uma pessoa.

Já o amor, o prazer, o gosto verdadeiro pela leitura ou pelo estudo são capazes de mudar a nossa vida. Ler e estudar devem ser uma escolha, uma vontade, uma busca por algo que não se tem.

O bebê já pode ser introduzido ao mundo dos livros e da leitura. Pais e professores podem começar contando histórias e oferecendo livros para que ele manuseie, explore, se entretenha com esse objeto. E não precisa ser livro de plástico, que produza som ou coisa semelhante. Livro de verdade mesmo, de papel, com figuras bonitas e letras, encanta o bebê.

O escritor Ilan Brenman, apaixonado pela literatura, afirma que um requisito importante para iniciar as crianças no universo da leitura é a beleza do livro. Sim: uma capa bonita já chama a atenção da criança, tanto quanto as ilustrações. Aliás, muitos livros sem palavras são lidos pelas crianças com a maior atenção.

Ainda falando de bebês e crianças muito pequenas: o papel do livro, suas diferentes texturas, odores e cores também já são alvo da curiosidade delas e objeto de pesquisa concentrada.

E o que dizer de livros de histórias que crianças já conhecem e adoram -"Peter Pan" e "Alice no País das Maravilhas", por exemplo- com adaptação em "pop-up"? Imperdíveis, já que encantam crianças e adultos.

Não devemos menosprezar as crianças quando o assunto é história: elas não gostam apenas daquelas que foram escritas para as crianças. Toda a literatura, principalmente a clássica, pode ser oferecida, sem censura.

Tornar a leitura um ato obrigatório é uma dessas manias que nós adotamos com as crianças que prejudicam a descoberta que elas poderiam fazer do prazer da leitura. Tudo bem: isso pode ser feito como tarefa escolar, mas depois, bem depois de oferecer a elas a oportunidade de ler por gosto e não por obrigação, no fim do ensino fundamental, por exemplo.

Finalmente: a literatura não deve servir para moralizar a vida dos mais novos.

Nada de contar histórias que só servem para tentar "ensinar" a criança a ter bons modos, escovar os dentes etc. A educação moral e para a higiene, por exemplo, deve usar outros recursos.

Que tal um programa com seu filho? Visitar uma biblioteca ou uma livraria para procurar um livro bonito e gostoso de ler e de ouvir?

Certamente você e seus filhos irão aprender muito sobre a vida e sobre vocês mesmos nesse programa. E boa viagem!


Texto de Rosely Sayão, psicóloga e autora do livro Como Educar Meu Filho?
Publicado originalmente no Caderno Equilíbrio (pág. 8), 
da Folha de São Paulo de 26/04/11.
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