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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Trecho selecionado (XVII)


"O orgulho - observou Mary, que se gabava da solidez das suas reflexões - é um defeito muito comum, creio eu. Por tudo o que tenho lido, estou mesmo convencida de que é muito comum, que a natureza humana manifesta uma tendência muito acentuada para o orgulho, que são pouquissímos os que não alimentam esse sentimento, fundados em alguma qualidade real ou imaginária! A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmo, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós."


[Trecho de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen]

sábado, 11 de junho de 2011

Trecho selecionado (XVI)



"Meu maior medo não é morrer sozinho, ainda que morrer sozinho, sem visitas em um hospital ou sem pássaros num asilo, é tão triste quanto uma pilha de discos de vinil para vender. Meu maior medo é viver sozinho e não me acompanhar. Meu maior medo é ter um dia de aniversário por ano para lembrar de que não nasci, de que estou "apenas olhando". Meu maior medo é perder a curiosidade da solidão. Ficar com alguém para disfarçar a espera, esquecendo do egoísmo de prender esse alguém de uma nova chance. Meu maior medo é ser reconhecido por aquilo que poderia ser. Meu maior medo é dizer sim para desistir depois, dizer não para querer depois. Meu maior medo é não ser avisado pelo medo. Meu maior medo é fingir que estou bem e me contentar em afirmar "o problema não é você, sou eu" em cada fim de relacionamento. E não acreditar nisso, seguir sendo o problema dos outros para me livrar de meu problema. Meu maior medo é viver sozinho e não ter fé para receber um mundo diferente e não ter paz para se despedir. Meu maior medo é almoçar sozinho, jantar sozinho e me esforçar em me manter ocupado para não provocar compaixão dos garçons. Meu maior medo é ajudar as pessoas porque não sei me ajudar. Meu maior medo é desperdiçar espaço em uma cama de casal, sem acordar durante a chuva mais revolta, sem adormecer diante da chuva mais branda. Meu maior medo é a necessidade de ligar a tevê enquanto tomo banho. Meu maior medo é conversar com o rádio em engarrafamento. Meu maior medo é enfrentar um final de semana sozinho depois de ouvir os programas de meus colegas de trabalho. Meu maior medo é a segunda-feira e me calar para não parecer estranho e anti-social. Meu maior medo é escavar a noite para encontrar um par e voltar mais solteiro do que antes. Meu maior medo é não conseguir acabar uma cerveja sozinho. Meu maior medo é a indecisão ao escolher um presente para mim. Meu maior medo é a expectativa de dar certo na família, que não me deixa ao menos dar errado. Meu maior medo é escutar uma música, entender a letra e faltar uma companhia para concordar comigo. Meu maior medo é que a metade do rosto que apanho com a mão seja convencida a partir com a metade do rosto que não alcanço. Meu maior medo é escrever para não pensar."

[Trecho de Pais e Filhos, Maridos e Esposas II, 
de Fabricio Carpinejarinédito em livro e publicado em seu blog]

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Trecho selecionado (XV)



"As palavras são de Rufus Jones:

Não estou interessado em construir novas torres de Babel usando como desculpa a idéia de que preciso chegar até Deus.
Estas torres são abomináveis; algumas são feitas de cimento e tijolos; outras, com pilhas de textos sagrados. Algumas foram construídas com velhos rituais, e muitas são erigidas com as novas provas científicas da existência de Deus.
Todas estas torres, que nos obrigam a escalá-las desde uma base escura e solitária, podem nos dar uma visão da Terra – mas não nos conduzem ao Céu.
Tudo que conseguimos é a mesma e velha confusão de línguas e emoções.
As pontes para Deus são a fé, o amor, a alegria e a oração."

[Trecho de Maktub, de Paulo Coelho]

terça-feira, 10 de maio de 2011

Trecho selecionado (XIV)


"A sensação de sermos unos com a natureza animal, vegetal e mineral, e a satisfação de mergulhar nessa sensação, não é de todo degradante. É tão bom sentir pulsar dentro de nós toda a vida, e simultaneamente buscar aquela existência superior cuja realização só nos é possível sonhar ou pressentir!

Não permitis que considerem fantasmas os dois grandes pólos do homem, a verdade e a felicidade; quando sonhamos sonhos de felicidade, é certo já a termos conquistado.

A satisfação de uma paixão absolutamente pessoal é embriaguez ou prazer: não é felicidade. A felicidade é algo duradouro e indestrutível; caso contrário, não seria felicidade. Aqueles que gostariam de perpetuar a embriaguez e de incluir nela a felicidade, andam atrás do impossível. O êxtase é um estado excepcional cuja permanência nos mataria, e a natureza inteira depressa se eclipsaria sob a influência desse estado delirante."


[Trecho de Diário Íntimo, da escritora francesa George Sand]

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Trecho selecionado (XIII)


Um homem dirigiu-se a um santo, tendo nas mãos uma criança recém-nascida. “Que devo fazer com esta criança?”, perguntou ele, “ela é miserável, deformada e não tem vida bastante para morrer”. “Mate-a”, gritou o santo com voz terrível, “mate-a e segure-a nos braços por três dias e três noites, a fim de criar em si mesmo uma lembrança: – desse modo você não gerará novamente um filho quando não for tempo de fazê-lo”.” – Ouvindo isso, o homem partiu decepcionado; e muitos censuraram o santo por haver aconselhado uma crueldade, pois aconselhara matar a criança. “Mas não é mais cruel deixá-la viver?”, exclamou o santo.
[Trecho de A Gaia Ciência, de Friedrich Nietzsche]

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Trecho selecionado (XII)


"Antigamente todos os contos para crianças terminavam com a mesma frase, e foram felizes para sempre, isto depois de o Príncipe casar com a Princesa e de terem muitos filhos. Na vida, é claro, nenhum enredo remata assim. As Princesas casam com os guarda-costas, casam com os trapezistas, a vida continua, e os dois são infelizes até que se separam. Anos mais tarde, como todos nós, morrem. Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre."


[Trecho de O Vendedor de Passadosde José Eduardo Agualusa]


Dedicado ao amigo Valdenir Andrade, de São Paulo, SP.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Trecho selecionado (XI)


"Ser diferente do que somos, de tudo o que somos, é o desejo mais nefasto que pode queimar num coração humano. Pois a única maneira de suportar a vida é se conformar em ser o que somos aos nossos olhos e aos do mundo. Devemos nos contentar em sermos feitos de uma certa maneira e em sabermos que, uma vez aceita essa realidade, a vida não nos louvará por nossa sabedoria, ninguém nos conferirá uma medalha de honra ao mérito só porque nos conformamos em ser vaidosos e egoístas, ou calvos e barrigudos - não, em troca dessa tomada de consciência não obteremos prêmios nem louvores. Devemos nos suportar tais como somos, este é o único segredo. Suportar nosso caráter, nossa natureza profunda, com todos os seus defeitos, seu egoísmo e sua cupidez, que não serão corrigidos nem com a experiência e nem com a boa vontade. Devemos aceitar que nossos sentimentos não são correspondidos, que as pessoas que amamos não retribuem o nosso amor, ou pelo menos não como gostaríamos. Devemos suportar a traição e a infidelidade, e sobretudo a coisa que nos parece mais intolerável: a superioridade intelectual ou moral do outro."

[Trecho de As Brasas, de Sándor Márai]


Escolhido especialmente para o blog pelo amigo 
Fagner Leite, de Itaperuna, RJ. Obrigado, queridíssimo!]

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Trecho selecionado (X)


"Aliás, estou decidido a calar-me agora mais do que nunca, a fim de não proporcionar aos meus algozes o espetáculo de uma covardia que não tenho e que jamais será minha. Torturem-me até a mutilação, ponham-me nu quantas vezes queiram, eu que já vivo nu sem que eles o percebam; deixem-me incomunicável em minha cela como se eu fora um anacoreta, eu que de fato sou um oásis cercado de deserto por todos os lados; — força nenhuma me fará abdicar de minha força ou mesmo de minha fraqueza, como nenhum instrumento de tortura me fará sair da minha pele, que afinal é a minha cidadela. Posso gritar, e acredito mesmo que venha a gritar muitas vezes, já que para isso foi dado o grito ao homem e o grito é apenas uma forma de defesa como outra qualquer; jamais, porém, me farão dizer A quando é B ou J que eu deva dizer, nem me crucificarão impunemente, sem que eu lhes responda com um riso de escárnio na boca ensangüentada."


[Trecho de A Lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho]

Escolhido especialmente hoje para o blog por uma mulher que considero incrível: Lucila Casseb Pessoti, de Salvador, BA. Força na peruca, Lu! Que nada de ruim te faça abdicar dela.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Trecho selecionado (IX)


"Ele queria subir, a mediocridade o sufocava, a pobreza cheirava morte. E a sua carreira finalmente tinha sido como um elefante sagrado caminhando sobre um tapete de criaturas humanas, de almas que suas patas brutais esmagavam.

Agora todo o seu velho sonho está desfeito em poeira, é como cinza áspera que lhe foge por entre os dedos, deixando-lhe na alma um ressabio amargo. No fim de contas que é ele ao cabo de tantas crueldades? De tanta agitação, de tantos conflitos? Nada. Um homem medíocre que, tendo procurado o sucesso através dum casamento rico, acabou encontrando nele apenas as mesmas inquietudes e incertezas do tempo de pobreza, a antiga e dolorosa sensação de inferioridade." 


[Trecho de Olhai os lírios do campo, de Erico Veríssimo]

Selecionado para o blog especialmente por  
Soeli Forte, de São Pedro de Alcântara, SC. Muito obrigado, Suca!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Trecho selecionado (VIII)



"O amor não tem outro desejo, que não seja de preencher a si próprio. Mas se amares e tiveres desejos, que sejam esses os vossos desejos: Fundir-se. E ser como um regato que corre e canta sua melodia para a noite.
Amai e amai sempre. Para conhecer a dor de tanta ternura, e ser ferido pela vossa própria compreensão do amor. Amai para sangrar com vontade e alegremente. Amai para despertar de madrugada com um coração alado, e dar graças a Deus por mais um dia."


[Trecho de Sobre o Amor, de Khalil Gibran]


Selecionado para o blog especialmente por  
Tania Drouet, de São Paulo, SP. Muito obrigado, Tata!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Trecho selecionado (VII)

"Pequena alma, alma terna e inconstante; companheira de meu corpo de que fostes hóspede. Vis descer àqueles lugares pálidos duros e nus onde deverás renunciar aos jogos de outrora. Por um momento ainda contemplemos os lugares objetos e pessoas que certamente nunca mais veremos.

Esforcemo-nos por entrar na morte de olhos abertos."


[Trecho de Memórias de Adriano,  de Marguerite Yourcenar]


Selecionado para o blog especialmente pelo querido 

Paulo Schultz, de Niterói, RJ. Valeu, Paulão! Obrigado!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Trecho selecionado (VI)


"Peguei uma folha de papel, alva e em branco, como um lençol récem-lavado para fazer amor, e a introduzi no rolo. Então senti algo estranho, como uma brisa alegre pelos  ossos, percorrendo os caminhos das veias sob a pele. Acreditei que aquela página esperava vinte e tantos anos por mim, que eu vivera apenas para esse instante, e desejei que a partir desse momento meu único ofício fosse o de captar as histórias suspensas no ar mais sutil, para torná-las minhas."

[Trecho de Eva Luna, de Isabel Allende]


Selecionado para o blog especialmente pela minha querida 
Joana Angélica Andrade, de Salvador, BA. Valeu, "Jô Eva Luna" e obrigado por tudo!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Trecho selecionado (V)




"Não conheço nenhum romancista que não sofra do vício descontrolado da leitura. Somos, por definição, bichos leitores. Roemos as palavras dos livros incessantemente, como a carcoma emprega todo o seu ser ao devorar madeira. Além disso, para aprender a escrever é preciso ler muito; por exemplo, George Eliot tinha uma vastíssima cultura e lia Homero e Sófocles em grego e Cícero e Virgílio em latim: eu sou incapaz de semelhante proeza e esta pode ser uma das razões pelas quais escrevo pior que ela. Em seu precioso ensaio Letra ferida, Nuria Amat propõe aos escritores uma pergunta cruel que consiste em decidir entre duas mutilações, duas catástrofes: se, por alguma circunstância que não vem ao caso, você tivesse que escolher entre nunca mais escrever ou nunca mais ler, o que escolheria? Nestes últimos anos formulei esta inquietante questão, na base da brincadeira, a quase todos os autores com quem me encontrei pelo mundo afora, e descobri duas coisas interessantes. A primeira é que a esmagadora maioria deles, pelo menos noventa por cento e possivelmente ainda mais, escolhe (escolhemos: eu também) continuar lendo. E a segunda é que esta brincadeira aparentemente inocente é um bom revelador da alma humana, porque tenho a sensação de que muitos dos escritores que dizem preferir a escrita são pessoas que cultivam mais o seu próprio personagem do que a verdade."

[Trecho de A Louca da casa, de Rosa Montero]

Selecionado para o blog especialmente pela minha querida 
Denise Thiery, da cidade maravilhosa, RJ. Beijos, Deinha e obrigado por tudo!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Trecho + Resenha


"Cada par copiava um mesmo trecho de prosa e vencia o aluno que apresentasse a letra mais bonita. O prêmio que se lhe dava era meter-lhe na mão a palmatória para que castigasse o vencido com uma dúzia de “bolos”. O professor chamou o meu nome e o nome do Doca. Aproximamo-nos da grande mesa. Eu tremia. Durante três minutos o velho examinou e comparou as duas escritas. Depois disse:
As duas letras são bem parecidas. Não se pode dizer que uma seja melhor do que a outra. Ambas são boas.
E lançou o julgamento:
“Empate”.
Respirei livremente.
O professor entregou-me a palmatória.
“Para que isso?”, perguntei.
“Para que há de ser?”, disse-me. Os dois não empataram?”. Você dá seis ‘bolos’ nele, e ele lhe dá seis ‘bolos’”.
Achei aquilo um disparate. Olhei o velho com surpresa.
“Que é que você está olhando?”, roncou ele asperamente.
A minha língua travou.
“Não posso compreender isso!, exclamei. Por que houve empate? Porque o Doca tem letra boa e eu tenho letra boa. Então quem tem letra boa apanha?”
João Ricardo ergueu-se da cadeira com um berro.
“Não quero novidades! Sempre e sempre foi assim. Atrevido! Quem é aqui o professor?
E entregou a palmatória ao Doca."

[Trecho de Cazuza, Viriato Corrêa]


Não é novidade para ninguém que no dia 15 de outubro, no Brasil, comemora-se, (aparentemente) o dia do professor.

Enfatizo o aparentemente porque como ex-membro da categoria, percebo que a cada dia que passa, os mestres desta nação têm muito pouco a comemorar, seja por conta de salários irrisórios que recebem por aulas dadas, ou por conta das inúmeras dificuldades que passam no exercício diário de sua profissão, onde, cada vez mais e com maior freqüência percebemos os mesmos tornando-se reféns de situações bizarras e absurdas que põem em risco tanto as suas reputações como profissionais quanto suas próprias vidas, quando geralmente têm de lidar com alunos problemáticos que são oriundos de núcleos familiares desestruturados que cada vez mais pipocam Brasil afora.

O fato é que o descaso das autoridades com a educação, setor que deveria ser tratado com alta prioridade neste país, está cada vez mais notório. Outrora uma profissão de status na sociedade, hoje em dia quase ninguém deseja tornar-se mais professor, o que não deixa de ser uma grande lástima. Penso que se um dia este país realmente deseje mostrar ao mundo que é desenvolvido, merecendo figurar entre os melhores do mundo, deve priorizar não só suas diretrizes educacionais, mas também valorizar ainda mais os profissionais que trabalham nas linhas de frente deste segmento, ou seja, os seus mestres.

Realmente são poucas as pessoas de hoje que (como nós um dia já idealizamos) abraçam com fervor a vontade e o desejo de exercer a profissão, possivelmente alimentando também no peito o secreto desejo de tornar o mundo um lugar melhor, seja proporcionando seus conhecimentos ou suas lições de vida a futuros cidadãos brasileiros ávidos por saber. Também são poucos os exemplos de profissionais em que professores aspirantes podem se espelhar, por conta deste caos instituído e enraizado no meio educacional, já que muitos mestres do agora não são nem a sombra de muitos que já existiram nos tempos de outrora, especialmente os de nossa época de estudantes, modelos irrepreensíveis com os quais convivemos em nossa vida escolar e que de certa forma nos influenciaram em nossas escolhas da vida. Isso sem mencionar aqueles que também conhecemos através de filmes como "Sociedade dos Poetas Mortos", canções como "To Sir With Love" (Lulu) e principalmente por meio dos livros que um dia lemos.

E aproveitando o gancho da data, como uma forma de homenagear os mestres do país, resolvi que hoje  o trecho e a resenha inéditos que posto aqui no blog estão relacionados aos professores, em especial com alguns modelos que conheci ainda na infância, ao ler certo dia, um livro aparentemente simplório chamado Cazuza, de um autor que, na época, jamais tinha sequer ouvido falar antes: Viriato Correia.

Segundo sua biografia, o maranhense Viriato foi professor, jornalista, contista, romancista, teatrólogo, dramaturgo, autor de uma série de livros infanto-juvenis e membro da Academia Brasileira de Letras. Com seu único romance de destaque, “Cazuza”, o escritor faz uma crítica à escola do início do século, que ainda conservava o ranço do Império, ou seja, o modelo ultrapassado onde os alunos, em classe, apenas ouviam a voz do professor e nada opinavam, principalmente em estabelecimentos de ensino de pequenos vilarejos espalhados pelas cidades do interior. O docente, portanto, nesta época, constituía a única pessoa na sala com o poder absoluto da palavra. Só ele falava e as crianças apenas ouviam e copiavam suas lições, no mais completo silêncio. Se porventura respondessem de forma errada ou dessem um passo em falso, eles, os alunos, apanhavam, como o que acontece com o protagonista, que acaba ficando com mãos inchadas e sangrentas em uma das passagens mais dramáticas da obra.

Cazuza foi lançado no Brasil em 1938 e segundo Viriato, em prévia introdução ao texto, se trata de um romance autobiográfico de um estranho que o autor conhecia apenas de vista e do qual jamais soube o nome verdadeiro. Ressalta ainda que recebeu em mãos os originais do misterioso indivíduo em sua casa e depois disso nunca mais teve notícias do sujeito, que na vizinhança era conhecido apenas por seu apelido, Cazuza, uma alcunha tipicamente brasileira e bastante comum entre as crianças da época e do lugar onde ele vivia, a região Nordeste do Brasil.

Basicamente, o livro narra as doces e amargas experiências escolares do misterioso Cazuza, desde seus primeiros anos escolares, onde é alfabetizado por João Ricardo, o cruel e autoritário professor da escola do povoado onde o garoto nasceu passando depois pelos cuidados da maternal Dona Neném quando este se muda para a Vila. Por fim, a narrativa nos leva até os dias de Cazuza como aluno interno em um colégio da capital do Estado, São Luís, convivendo assim, nesta breve passagem de sua vida, com tipos humanos bastante distintos, entre professores e alunos, facilmente divididos entre pessoas cativantes e inesquecíveis e pessoas, infelizmente, intoleráveis e repugnantes.

Mas, mesmo não sendo o autor real do livro, que transborda de carisma e simplicidade, Viriato ajudou a criar um belo romance sobre o processo de crescimento físico e amadurecimento emocional de uma criança por meio de suas impressões pessoais no meio acadêmico, focando sempre em uma visão crítica sobre a pedagogia do antigamente, onde castigos físicos impostos aos estudantes e outras práticas abomináveis de disciplina rígidas eram adotadas por muitos estabelecimentos educacionais, especialmente os da década de 30, quando o Brasil se encaminhava para as políticas do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Foi nesse contexto político e ideológico que o livro Cazuza foi elaborado. Destinado às crianças, a obra traz, em um tom fortemente didático, questões que envolvem a moral e o enaltecimento de virtudes, que devem a todo custo ser seguidas, tais como a tolerância, a generosidade, a obediência, o respeito e a piedade, da mesma forma como o repúdio aos vícios, sendo os principais a mentira, a soberba, o autoritarismo, além, claro da exaltação máxima ao amor pela família, célula que precisa que naquela época precisava ser mantida, pois era em seu seio que se iniciava a formação do cidadão, posteriormente lapidado pela instituição escolar.

Recomendo Cazuza com louvor. Para quem é ou foi aluno ou para quem é ou deseja ser um professor. No caso dos pequenos, sua leitura é indispensável para a formação moral das crianças, pois traz questões que envolvem o cultivo das virtudes. E para os adultos, revela o papel da escola como um agente de formação e não de repressão do cidadão, mesmo mostrando os dois lados da moeda.


Observação: embora a grafia do nome do autor seja Corrêa na capa do livro, enfatizo que a forma correta é Correia, de acordo com o site da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Trecho selecionado (VII)


"Falta muito? Não, basta atravessar aquele rio lá longe, no fundo, ultrapassar aquelas verdes colinas. Ou já não se chegou, por acaso? Não são talvez estas árvores, estes prados, esta casa branca o que procurávamos? Por alguns instantes tem-se a impressão que sim, e quer-se parar ali. Depois ouve-se dizer que o melhor está mais adiante, e retoma-se despreocupadamente a estrada. Assim, continua-se o caminho numa espera confiante, e os dias são longos e tranqüilos, o sol brilha alto no céu e parece não ter mais vontade de desaparecer no poente.
Mas a uma certa altura, quase instintivamente, vira-se para trás e vê-se que uma porta foi trancada às nossas costas, fechando o caminho de volta. Então, sente-se que alguma coisa mudou, o sol não parece mais imóvel, desloca-se rápido, infelizmente, não dá tempo de olhá-lo, pois já se precipita nos confins do horizonte, percebe-se que as nuvens não estão mais estagnadas nos golfos azuis do céu, fogem, amontoando-se umas sobre as outras, tamanha é sua afoiteza; compreende-se que o tempo passa e que a estrada, um dia, deverá inevitavelmente acabar."


Trecho de "O deserto dos Tártaros", de Dino Buzzati, escolhido especialmente para o blog pela minha amiga querida Marcia Regina, de Porto Alegre, Rio Grande de Sul. Muito obrigado, Marcia! Eu e o Brasil inteiro te adoramos!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Trecho selecionado (VI)


"Tinha sido assim meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schianberg. Faço parte de uma ínfima minoria integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, vetado aos demais. Uma reserva de sonho contra tudo que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg.
Não sei que nome você daria a isso.
Bem, não importa muito, chame do que quiser.
Eu chamo de amor."


[Marçal Aquino]


Trecho do livro Eu receberia as piores notícias dos seus mais lindos lábios escolhido especialmente pela minha amiga de São Paulo (SP), Elizete Costa. Obrigado pela sua participação aqui, Eliz!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Trecho selecionado (V)


"Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."

[João Guimarães Rosa - trecho de "Grande Sertão: Veredas"]

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Trecho selecionado (IV)







"Histórias, assim como pessoas, borboletas, ovos de aves canoras, corações humanos e sonhos, também são coisas frágeis, feitas de nada mais forte ou duradouro do que 26 letras e um punhado de sinais de pontuação. Ou então são palavras no ar, compostas de sonhos e idéias — abstratas, invisíveis, sumindo no momento em que são pronunciadas -, e o que poderia ser mais inútil do que isso? Mas algumas histórias, pequenas, simples, sobre gente embarcando em aventuras ou realizando maravilhas, contos de milagres e de monstros, duram mais do que todas as pessoas que as contaram, e algumas duram mais do que as próprias terras onde elas foram criadas."

[Neil Gaiman - Trecho de Coisas Frágeis]

Escolhido por Lucelma Carvalho (Comunidade Prosiverso, orkut).

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Trecho selecionado (III)


"Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor. (...) O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.”

[Clarice Lispector] 

Trecho de "A Paixão Segundo G.H.".

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Trecho selecionado (II)



"De onde vêm essas misteriosas influências que transformam a alegria em desânimo e a autoconfiança em acanhamento? Poder-se-ia quase dizer que o ar, o ar invisível, está cheio de forças incompreensíveis, cuja presença misteriosa temos de suportar. Acordo com a melhor disposição, sentindo vontade de cantar. Por quê? Desço até a beira da água e, de repente, depois de andar um pouco, volto para casa infeliz, como se uma desgraça estivesse esperando por mim. Por quê?Seria um calafrio que me passou pela pele e abalou meus nervos, deixando-me desanimado? Seria a forma das nuvens, a cor do céu ou dos objetos ao redor de mim tão inconstante, que perturbou meus pensamentos, quando passaram diante de meus olhos? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem querer, tudo o que manejamos sem sentir, tudo o que encontramos sem ver claramente, tem rápida, surpreendente e inexplicável influência sobre nós e nossos sentidos e, através destes, em nossas idéias e até em nosso coração.Como esse mistério do Invisível é profundo!"

[Guy de Maupassant]

Trecho de "O Orla", escolhido pela Maria (Comunidade Prosiverso, orkut).
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