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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Resenha: Saudades do Século XX


Mais que um livro de memórias, um verdadeiro legado

Saudades do Século XX pode parecer exclusivamente um livro de memórias à primeira vista, ainda mais com o termo "saudades" tão destacado e onipresente no título.

Mas não se engane. O livro, realmente, é sobre recordações, mas ao lê-lo, ficou claramente explícito para mim que a finalidade maior da obra é legar a uma nova geração aquilo que Ruy Castro, o autor, apreciou em seus anos dourados de juventude e continua apreciando em idade madura.

Escritor de reputação insuspeita, Ruy é um dos melhores do Brasil no quesito biografias. E neste livro é o que não faltam, mesmo sucintas. Billie Holiday, Anita O'Day, Doris Day, Fred Astaire, Mae West, Orson Welles, Billy Wilder,  Alfred Hitchcock, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Humphrey Bogart, Glenn Miller e Frank Sinatra, com histórias de suas vidas, o esperam aqui.

Em sua obra, Ruy conta a vida desses nomes universalmente admirados do cinema, da literatura e da música popular. Vidas tão ricas e emocionantes quanto as obra que deixaram. E, em muitos casos, vidas que foram o exato oposto das imagens que eles passavam em seus filmes, livros e discos, por conta de tragédias pessoais.

Portanto você conhecerá uma Billie Holiday às voltas com drogas pesadas e casamentos infelizes, uma Doris Day implacavelmente atacada pela crítica e por seus credores, uma Mae West supostamente frígida (logo ela, uma deusa do sexo), um Orson Welles que não conseguia concluir seus projetos, mesmo sendo considerado um gênio e um Frank Sinatra com sérios infortúnios na vida amorosa e profissional.

Se você já aprecia estes artistas, excelente! Se não aprecia, recomendo que um dia resolva averiguar suas vidas por meio da leitura deste livro, que é ótimo, na minha mais sincera opinião, mesmo não trazendo relatos mais completos e detalhados das vidas daqueles que foram retratados em suas páginas. 

Saudades do Século XX, como disse antes, é um livro feito para despertar uma espécie de bom gosto nos leitores para as coisas que o autor aprecia. E espero que consiga este propósito. Confesso que após a leitura, fiquei interessadíssimo em saber um mais a respeito da vida destas pessoas e também sobre suas dignas contribuições para tornar este mundo um pouco mais melhor.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Resenha: Almanaque da Telenovela Brasileira


As paixões nacionais retratadas em livro

Entre os brasileiros, mesmo em tempos de grande popularidade de tevês pagas e da internet, as telenovelas (exibidas em canais abertos) ainda são opções de entretenimento bastante populares, principalmente nas camadas mais simples da população. Outrora, já foram mania nacional, quando o leque de opções de diversão em horas vagas era ainda reduzido.

De salões de beleza a bares, as novelas sempre estão nas mentes e nas bocas dos brasileiros. E também difundidas entre pessoas de várias parte do mundo, para onde elas são importadas quando são sucesso de público e crítica em terras tupininquins. Portanto, é bastante comum o turista brasileiro ser abordado por nativos (geralmente estranhos) de Cuba, Rússia, China e Filipinas, ávidos em busca de maiores informações sobre o final de determinadas novelas brasileiras que estão sendo exibidas naquele momento em seus países.

Mas mudando um pouco de assunto, foi por conta da paixão de Nilson Xavier pelos folhetins que surgiu este Almanaque da Telenovela Brasileira. Quando era mais jovem, costumava ter o hobby de fazer anotações, em um caderno escolar, a respeito das novelas que assistia com avidez no conforto de seu lar e junto de sua família.

A primeira de muitas foi Marrom Glacê, de Cassiano Gabus Mendes, exibida pela Rede Globo entre os anos de 1979-1980. E o que de início era apenas um caderno, acabaram-se tornando vários, ao longo dos anos. Inclusive recheados de ilustrações de revistas da época. Neles, Nilson colocava informações relevantes como elencos, diretores, trilhas sonoras, curiosidades, além de outras minúcias que não escapavam de sua implacável observação, especialmente costumes de época.

Com isso, Nilson fez um trabalho digno de um historiador. E os resultados, anos mais tarde, foram um site na internet o qual ele batizou de Teledramaturgia e depois, claro, este livro, muito bom, por sinal, que se tratando de uma obra de autor iniciante, é um verdadeiro mérito.

No almanaque, o leitor interessado encontrará informações sobre novelas de várias emissoras, exibidas desde 1963 até o ano de publicação da obra (2007) e relembrará momentos emocionantes da teledramaturgia brasileira, endossados por Mauro Alencar, historiador da televisão brasileira (que escreveu o prefácio) e por Sílvio de Abreu, autor consagrado de vários folhetins (que escreveu a orelha da obra).

Você quer saber ou relembrar quem matou Odete Roitman, em Vale Tudo? Ou quem sabe descobrir que coisas Dona Lola fazia para ajudar o marido nas despesas do lar, em Éramos Seis? Sacie então a sua curiosidade. Busque por este livro e não se arrependerá. Obra muito bem planejada, feita por alguém que gosta mesmo do assunto para pessoas de semelhante gosto.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Resenha: Lendas e Mitos do Brasil


O melhor do imaginário nacional

Lendas e Mitos do Brasil, de Theobaldo Miranda Santos, é o livro mais completo sobre histórias de nosso folclore que já li. Recomendo.

Esta "pequena grande obra", em tempos de criança e nas horas prazerosas dedicadas a biblioteca escolar, era uma das minhas favoritas do recinto, sendo lida e relida exaustivamente ao longo dos anos. A capa, inclusive, não era esta verde-amarela atual. Ela trazia, originalmente, um risonho e convidativo saci desafiando-nos a mergulhar de cabeça em todos os mistérios que o livro continha.

Aliás, contém. Dividido em cinco partes, Lendas e Mitos do Brasil traz aos leitores as lendas e mitos mais conhecidos e divulgados em cada uma das cinco regiões brasileiras: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, oriundas da sabedoria e das tradições de três povos distintos que deram origem a todos os brasileiros: os índios, naturais da terra, os negros, vindos da África e os brancos, que vieram de Portugal.

Portanto, na região Norte encontramos mitos como o da Iara (Mãe d'água), da Vitória-Régia, do Uirapuru, do Curupira, da Criação da Noite, do Japiim (pássaro que inclusive dá nome ao bairro onde moro), do Guaraná e muitos outras mais, de origem indígena.

Na região Nordeste já conhecemos então mitos de natureza mais européia, como o do Lobisomem, do Barba Ruiva, da Cidade Encantada, do Pecado da Solha, etc.

No Centro-Oeste, contos variados, destacando-se A Mula-Sem-Cabeça, A Origem das Estrelas, A Mãe do Ouro e a história terrível do Moleque Amaldiçoado (Romãozinho).

O Sudeste contribui com lendas de teor mais histórico, geralmente ligados às missões que os bandeirantes paulistas desempenhavam no período colonial brasileiro. Portanto, nesta parte você conhecerá O Filho do Trovão (Caramuru), A História de Chico Rei, O Segredo de Robério Dias,  lendas envolvendo milagres de São Sebastião e Nossa Senhora da Glória e muito mais.

Por fim, o Sul nos lega alguns de seus mitos mais populares, como o Boitatá, a história d'O negrinho do Pastoreio, o Nascimento das Cataratas do Iguaçu, as origens da Erva-Mate e um de seus mais populares, a Lenda do Lagarto Encantado (a Teiniaguá)

Adquira já o seu, caso aprecie histórias do tipo. A diversão será garantida para crianças e adultos, que juntos também ganham mais em saber e cultura relacionados à sua pátria-mãe.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Resenha: Corações Blues e Serpentinas


Contos muito bons

Inicio esta resenha do livro de Lima Trindade sendo bastante sincero, especialmente com o próprio autor, que é meu amigo: não gostei de todos os contos, mas apreciei muitíssimo a maior parte deles. 

Particularmente, considero este fato até normal quando estamos às voltas com livros que tratam do gênero conto. Não gostar de todas as histórias de uma obra já ocorreu antes comigo e com certeza deve ter acontecido com muitas outras pessoas. E, em relação a mim, aconteceu até mesmo quando li contos policiais de Arthur Conan Doyle, inclusive alguns com seu personagem mais célebre, o destemido e perspicaz detetive Sherlock Holmes. E olha que Sir Conan Doyle figura entre meus autores favoritos de todos os tempos!

Mas voltando ao Corações blues e serpentinas, o mesmo não é nenhum livro policial ou de detetives. Ele trata, fundamentalmente, de um tema com o qual todos nós, seres humanos, estamos familiarizados, seja em maior ou em menor intensidade de espírito: o amor. Seus quinze contos investigam as mais diversas nuances e tonalidades das relações amorosas, inseridas em dias atuais.

A obra é dividida em duas partes: “Blues”, que trata mais de conflitos e dificuldades às quais as relações íntimas estão sujeitas (o termo ‘blues’ vem de tristezas) e “Chorinhos”, onde se percebe que amar também pode ser prazeroso algumas vezes. E nesse caldeirão de contos, Lima Trindade, como diz uma informação da orelha de seu livro, “reproduz o inconsciente de sua geração, que viveu o rock, a renovação na literatura, no cinema e no teatro, as lutas das minorias, a liberação sexual, a mudança de costumes, o embate ideológico e outros conflitos.” Por isso, seu livro é uma verdadeira festa para aqueles que estão antenados com o contemporâneo e com inúmeras referências ‘pop’ oriundas de canções, histórias em quadrinhos, filmes e outros meios de informação e entretenimento.

O homoerotismo, tema um tanto tabu em produções literárias também dá movimento, vida e cor à maior parte dos contos, mas também encontramos na obra o amor entre homem e mulher, caso alguém tenha alguma ressalva contra histórias que envolvam 'amor transgressor’. Entre os contos que mais gostei, destaco então “Noite num hotel da Asa Norte” (sobre as dúvidas de um jovem homossexual sobre vida e amor), “O balão amarelo” (pela poesia que exala, muito bem escrito por sinal), “Leponex” (uma espécie de Eduardo & Mônica – canção da Legião Urbana – adaptado para os dias atuais), “Três movimentos para um selvagem desamor” (sobre o amor entre duas mulheres de gerações diferentes), “A primeira vez” (paixão platônica e avassaladora de um escritor iniciante por seu ídolo), “Anjinho barroco” (relação homo que oscila entre o sagrado e o profano), “Uma vez no céu escuro e brilhante” (uma ficção científica com tons de arco-íris) e “Queen Sally II” (de longe o que mais gostei, pelo fator surpresa).

Este foi o terceiro livro que Lima lançou em sua profícua carreira e o primeiro dele que li. Que venham outros mais então, pois talento não lhe falta e com certeza belas histórias para nos contar também não. Procure conhecer, portanto (assim como eu), as suas produções.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Resenha: O amor não escolhe sexo


Um doloroso embate entre aceitação e discriminação

"Existe o lado escuro da Lua: preconceitos e discriminações. Mas existe o lado iluminado pelo Sol - um jeito feliz de viver, com solidariedade e respeito, apesar das diferenças."

É com essa premissa que Giselda Laporta Nicolelis (uma já veterana e consagrada autora de livros para jovens) dá o ponto de partida àquele que é  considerado, talvez, o primeiro livro infanto-juvenil pulicado em terras brasileiras (1997) a abordar, abertamente, a delicada e até então controversa questão da homossexualidade entre o meio juvenil.

O amor não escolhe sexo relata a história de um jovem bonito, rico, inteligente, encantador, bom aluno e muito popular na escola, Marco Aurélio, que se vê apaixonado pelo seu melhor amigo, Cristiano. Trata-se de uma obra sensível, que nos leva a refletir sobre o preconceito, mesmo que a autora demonstre, em alguns momentos da narrativa, uma certa insegurança em abordar o tema, o que numa época de incompreensão como aquela em que foi lançado é totalmente justificável, pois lá no fundo sabemos que as editoras querem que seus livros façam sucesso e vendam bem, muitas vezes desconsiderando entre seus livros temas espinhosos que venham lhe trazer possíveis prejuízos.

Marco Aurélio e Gislaine; Cristiano e Tamires. Aparentemente, dois casais de adolescentes apaixonados (especialmente o primeiro). Mas, até que ponto o amor resiste a pressões? Quando a  real orientação sexual se revela, como a pessoa reage para não sucumbir ao estigma?

Abordando o lado mais sentimental e romântico da questão e sem maiores resquícios de desejo carnal em suas páginas, a obra também convida seus leitores a uma reflexão mais profunda: é esse o mundo que queremos para nós mesmos, os outros e nossos descendentes? Um mundo que nos proíba amar a quem nosso coração desejar? Um mundo de barbárie, incompreensão e preconceito que no fundo é a herança indesejada de costumes antigos, geralmente oriundos de questões religiosas e nenhum pouco filosóficas, onde as pessoas têm o poder de exercer seu livre pensamento?

Sugiro com entusiasmo este clássico de Giselda Laporta Nicolelis a pais, a jovens que estejam em dúvida com suas sexualidades e a todas as pessoas em geral, especialmente àquelas que ainda estejam às voltas com velhos julgamentos relacionados à orientação sexual dos indivíduos, para que possam chegar a um entendimento a respeito do que foram condicionados a pensar ao longo de toda uma vida, no que diz respeito às relações amorosas entre as pessoas. 

E após a leitura, talvez aplicar novas atitudes sobre o que foi lido, preferencialmente no que tange ao próprio bem-estar (pois muitas vezes o preconceito se origina em algum conteúdo interior mal-resolvido) e ao bem estar das pessoas, já que afinal  de contas em um mundo onde um homem é condecorado por matar um semelhante e condenado por amar outro do mesmo sexo, todas as pessoas merecem ser felizes, não importa qual seja a forma com que elas busquem a felicidade.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Resenha: Almanaque dos Seriados


Excelente opção para os nostálgicos


Nos últimos anos, em terras brasileiras, houve uma abundante e variada proliferação de almanaques que abordam os mais diversos temas, como televisão, novelas, cinema, quadrinhos, fusca, futebol, anos 70, 80, 90... E como não poderia deixar de ser, os seriados de TV teriam de ter o seu espaço também.

Verdadeiras manias nacionais, os seriados encantam inúmeras gerações Brasil afora, sejam os mesmos nacionais ou estrangeiros. E neste Almanaque dos Seriados, temos a oportunidade de recordar muitas produções que marcaram época ou que já caíram no esquecimento.

Diferente de seu trabalho posterior, o Animaq - Almanaque dos Desenhos Animados, que deixou um pouco a desejar, Paulo Gustavo Pereira faz um trabalho irrepreensível com este livro, na verdade sua estréia como autor. Nele você vai encontrar alguns seriados que muitos curtiram na infância, como o japonês Nacional Kid e o nacional Vigilante Rodoviário, sem falar em outros consagrados como Agente 86, Magnum, a Ilha da Fantasia, As Panteras e outros mais recentes como CSI, Barrados no Baile, Law & Order, Smallville, Sex and The City, Friends.... Com capítulos divididos por décadas, de 1950 a 2000, foram selecionadas as séries mais populares, com suas histórias, bastidores, dados sobre atores, produção e muitas outras curiosidades. 

Se eu fosse você não desperdiçaria a oportunidade de embarcar no túnel do tempo e recordar momentos marcantes que você um dia teve em frente a TV. Vamos nessa então?

terça-feira, 3 de maio de 2011

Resenha: Cinzas do Norte


Um livro denso, poderoso


Cinzas do Norte é o  terceiro romance de Milton Hatoum e de longe aquele que mais gostei. Como confesso fã e conterrâneo que sou do autor, já li quase toda a sua obra, à exceção de sua estréia, "Relato de Um Certo Oriente", e espero, ainda este ano, poder preencher esta lacuna incômoda que existe entre minhas leituras, até porque ando sentindo mesmo um pouco de falta da forma peculiar com que Milton Narra seus romances.

Alguns leitores de primeira viagem ou desavisados podem estranhar, mas em algumas de suas obras, há uma grande variedade de pessoas que narram as histórias. Umas vivas, outras mortas, algumas conhecidas, outras desconhecidas. Não é todo mundo que se dá de imediato com o estilo do autor, como percebo em inúmeras resenhas pela internet afora. Porém, recomendo com louvor a adesão de novos leitores ao seleto fã-clube de Milton.

Mas voltando ao Cinzas, o mesmo relata a gênese, o desenvolvimento, a culminância e a conclusão de uma longa revolta e do esforço de compreendê-la, já que a mesma não é nenhuma guerra ou batalha no plano físico, mas no psicológico de alguns personagens da trama. 

Na Manaus dos anos 50 e 60, dois meninos travam uma amizade que atravessará toda uma vida. De um lado, Olavo, o Lavo, narrador, menino órfão criado por dois tios sem eira e nem beira, que cresce à sombra da poderosa família Mattoso; de outro, Raimundo ou Mundo, filho único deste referido clã, saído do ventre de Alícia, uma mãe jovem e  passional e herdeiro (literalmente) do aristocrático Trajano Mattoso. 

No centro das ambições de Trajano está a Vila Amazônia, palacete junto à cidade de Parintins que é a sede de uma plantação de juta e também o pesadelo máximo de Mundo. Dotado de inclinações artísticas e propenso a  investigar suas mais profundas angústias, o jovem engalfinha-se numa constante luta contra a autoridade paterna, com o lugar onde vive e de onde quer voar, a moral dominante da época e  também com os militares que tomam o poder em 1964 e que desencadeiam uma vertiginosa destruição à cidade de Manaus, outrora conhecida como a "Paris dos Trópicos", graças ao período áureo da borracha. 

Na luta que culmina em uma inevitável fuga de tudo que o oprime, especialmente do pai, Mundo amplia o seu universo particular, ganhando o mundo afora no decorrer da década seguinte. E na distante Europa, onde se instala, manda ocasionais sinais de vida para Lavo, que ajudado pelo pai de Mundo, se torna advogado, mas ainda preso à terra natal. 

Vários desdobramentos completam a narrativa de Cinzas do Norte. São versões e revelações que se cruzam ou desencontram, dando à história uma singularidade única, onde o leitor provavelmente se identificará com o sofrimento de Mundo e com suas tentativas de se firmar na vida. Impossível ficar indiferente aos seus dramas pessoais.

Sem falar que na trama existe um grande segredo que vale a pena ser desvendado. Portanto, convido você, leitor, a mergulhar de corpo e alma nas páginas desta obra densa, poderosa e que te prende. Ela realmente vale a pena.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Poesia (XIII)


Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo. 

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão. 

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira. 

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta. 

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente. 

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem. 

Traduzir uma parte
na outra parte
 que é uma questão
de vida ou morte 
será arte?


 [Ferreira Gullar. Poesia retirada do livro Na Vertigem do Dia, 1980]

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Resenha: Aos meus amigos


Amizade à flor da pele

Eis um livro inusitado e ao mesmo tempo fascinante de se ler. Aos meus amigos, de Maria Adelaide Amaral, conta a história do reencontro de uma turma de antigos amigos, onde passado e presente se misturam em cada diálogo, mostrando que viver é fazer uma série de escolhas. 

O livro inspirou a minissérie Queridos Amigos, também exibida em 2008 na TV Globo, também assinada pela autora. A história do romance, baseada em fatos reais de sua vida, se articula em torno de um suicídio, o do escritor e publicitário Leo (inspirado na morte real de Décio Bar, amigo da escritora, a quem o romance é dedicado).  É o suicídio deste personagem que, no agitado ano de 1989 (frente ao impeachment de Fernando Collor da presidência do Brasil), mobilizará a retomada da 'velha turma', que reviverá, intensamente, os ideais da esquerda nos anos da ditadura militar brasileira (1964-1985). Um reencontro feito também de desencontros, inclusive políticos.

Outrora, os amigos apenas se encontravam em ocasiões festivas ou de protesto. Agora,  reúnem-se para velar o corpo de Leo e tentar manter viva sua memória, enquanto procuram com certa ânsia os originais de um livro que ele teria deixado e que retratava cada um deles.

Aos meus amigos é ágil, mais baseado em diálogos do que em descrições, e retrata fidedignamente o tema amizade, em todas as suas nuances, sejam elas boas ou más. Portanto, prepare-se para lidar com um turbilhão de emoções que envolvem não só amor e carinho, mas sentimentos concretos como inveja, ciúme, paixões mal-resolvidas, preconceito, medos, arrependimentos e demais coisas que giram em torno desse grupo de aproximadamente dez amigos, formado por jornalistas, escritores, médicas, ex-modelos, professores, hippies... Os fatos e personagens são construídos e reconstruídos constantemente por meio de referências e reminiscências, como nas conversas reais que temos com nossos próprios companheiros de amizade.

Isso sem contar a aula de literatura, música e cinema, pois muitas são as referências pop na obra. E quem gosta do assunto, terá um verdadeiro prato cheio à sua frente. Não assisti a minissérie completamente pela TV. Mas confesso que ao ler o livro, fiquei com vontade de fazer isso. Pelo pouco que vi, notei que existem grandes diferenças entre um e outra. Preciso logo resolver essa lacuna.
Quanto aos demais, não deixem de ler ao menos esse livro. Se você possui um grupo grande de amigos como o de Leo, provavelmente se identificará com algumas de suas passagens e situações. Recomendo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Trecho + Resenha


"Cada par copiava um mesmo trecho de prosa e vencia o aluno que apresentasse a letra mais bonita. O prêmio que se lhe dava era meter-lhe na mão a palmatória para que castigasse o vencido com uma dúzia de “bolos”. O professor chamou o meu nome e o nome do Doca. Aproximamo-nos da grande mesa. Eu tremia. Durante três minutos o velho examinou e comparou as duas escritas. Depois disse:
As duas letras são bem parecidas. Não se pode dizer que uma seja melhor do que a outra. Ambas são boas.
E lançou o julgamento:
“Empate”.
Respirei livremente.
O professor entregou-me a palmatória.
“Para que isso?”, perguntei.
“Para que há de ser?”, disse-me. Os dois não empataram?”. Você dá seis ‘bolos’ nele, e ele lhe dá seis ‘bolos’”.
Achei aquilo um disparate. Olhei o velho com surpresa.
“Que é que você está olhando?”, roncou ele asperamente.
A minha língua travou.
“Não posso compreender isso!, exclamei. Por que houve empate? Porque o Doca tem letra boa e eu tenho letra boa. Então quem tem letra boa apanha?”
João Ricardo ergueu-se da cadeira com um berro.
“Não quero novidades! Sempre e sempre foi assim. Atrevido! Quem é aqui o professor?
E entregou a palmatória ao Doca."

[Trecho de Cazuza, Viriato Corrêa]


Não é novidade para ninguém que no dia 15 de outubro, no Brasil, comemora-se, (aparentemente) o dia do professor.

Enfatizo o aparentemente porque como ex-membro da categoria, percebo que a cada dia que passa, os mestres desta nação têm muito pouco a comemorar, seja por conta de salários irrisórios que recebem por aulas dadas, ou por conta das inúmeras dificuldades que passam no exercício diário de sua profissão, onde, cada vez mais e com maior freqüência percebemos os mesmos tornando-se reféns de situações bizarras e absurdas que põem em risco tanto as suas reputações como profissionais quanto suas próprias vidas, quando geralmente têm de lidar com alunos problemáticos que são oriundos de núcleos familiares desestruturados que cada vez mais pipocam Brasil afora.

O fato é que o descaso das autoridades com a educação, setor que deveria ser tratado com alta prioridade neste país, está cada vez mais notório. Outrora uma profissão de status na sociedade, hoje em dia quase ninguém deseja tornar-se mais professor, o que não deixa de ser uma grande lástima. Penso que se um dia este país realmente deseje mostrar ao mundo que é desenvolvido, merecendo figurar entre os melhores do mundo, deve priorizar não só suas diretrizes educacionais, mas também valorizar ainda mais os profissionais que trabalham nas linhas de frente deste segmento, ou seja, os seus mestres.

Realmente são poucas as pessoas de hoje que (como nós um dia já idealizamos) abraçam com fervor a vontade e o desejo de exercer a profissão, possivelmente alimentando também no peito o secreto desejo de tornar o mundo um lugar melhor, seja proporcionando seus conhecimentos ou suas lições de vida a futuros cidadãos brasileiros ávidos por saber. Também são poucos os exemplos de profissionais em que professores aspirantes podem se espelhar, por conta deste caos instituído e enraizado no meio educacional, já que muitos mestres do agora não são nem a sombra de muitos que já existiram nos tempos de outrora, especialmente os de nossa época de estudantes, modelos irrepreensíveis com os quais convivemos em nossa vida escolar e que de certa forma nos influenciaram em nossas escolhas da vida. Isso sem mencionar aqueles que também conhecemos através de filmes como "Sociedade dos Poetas Mortos", canções como "To Sir With Love" (Lulu) e principalmente por meio dos livros que um dia lemos.

E aproveitando o gancho da data, como uma forma de homenagear os mestres do país, resolvi que hoje  o trecho e a resenha inéditos que posto aqui no blog estão relacionados aos professores, em especial com alguns modelos que conheci ainda na infância, ao ler certo dia, um livro aparentemente simplório chamado Cazuza, de um autor que, na época, jamais tinha sequer ouvido falar antes: Viriato Correia.

Segundo sua biografia, o maranhense Viriato foi professor, jornalista, contista, romancista, teatrólogo, dramaturgo, autor de uma série de livros infanto-juvenis e membro da Academia Brasileira de Letras. Com seu único romance de destaque, “Cazuza”, o escritor faz uma crítica à escola do início do século, que ainda conservava o ranço do Império, ou seja, o modelo ultrapassado onde os alunos, em classe, apenas ouviam a voz do professor e nada opinavam, principalmente em estabelecimentos de ensino de pequenos vilarejos espalhados pelas cidades do interior. O docente, portanto, nesta época, constituía a única pessoa na sala com o poder absoluto da palavra. Só ele falava e as crianças apenas ouviam e copiavam suas lições, no mais completo silêncio. Se porventura respondessem de forma errada ou dessem um passo em falso, eles, os alunos, apanhavam, como o que acontece com o protagonista, que acaba ficando com mãos inchadas e sangrentas em uma das passagens mais dramáticas da obra.

Cazuza foi lançado no Brasil em 1938 e segundo Viriato, em prévia introdução ao texto, se trata de um romance autobiográfico de um estranho que o autor conhecia apenas de vista e do qual jamais soube o nome verdadeiro. Ressalta ainda que recebeu em mãos os originais do misterioso indivíduo em sua casa e depois disso nunca mais teve notícias do sujeito, que na vizinhança era conhecido apenas por seu apelido, Cazuza, uma alcunha tipicamente brasileira e bastante comum entre as crianças da época e do lugar onde ele vivia, a região Nordeste do Brasil.

Basicamente, o livro narra as doces e amargas experiências escolares do misterioso Cazuza, desde seus primeiros anos escolares, onde é alfabetizado por João Ricardo, o cruel e autoritário professor da escola do povoado onde o garoto nasceu passando depois pelos cuidados da maternal Dona Neném quando este se muda para a Vila. Por fim, a narrativa nos leva até os dias de Cazuza como aluno interno em um colégio da capital do Estado, São Luís, convivendo assim, nesta breve passagem de sua vida, com tipos humanos bastante distintos, entre professores e alunos, facilmente divididos entre pessoas cativantes e inesquecíveis e pessoas, infelizmente, intoleráveis e repugnantes.

Mas, mesmo não sendo o autor real do livro, que transborda de carisma e simplicidade, Viriato ajudou a criar um belo romance sobre o processo de crescimento físico e amadurecimento emocional de uma criança por meio de suas impressões pessoais no meio acadêmico, focando sempre em uma visão crítica sobre a pedagogia do antigamente, onde castigos físicos impostos aos estudantes e outras práticas abomináveis de disciplina rígidas eram adotadas por muitos estabelecimentos educacionais, especialmente os da década de 30, quando o Brasil se encaminhava para as políticas do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Foi nesse contexto político e ideológico que o livro Cazuza foi elaborado. Destinado às crianças, a obra traz, em um tom fortemente didático, questões que envolvem a moral e o enaltecimento de virtudes, que devem a todo custo ser seguidas, tais como a tolerância, a generosidade, a obediência, o respeito e a piedade, da mesma forma como o repúdio aos vícios, sendo os principais a mentira, a soberba, o autoritarismo, além, claro da exaltação máxima ao amor pela família, célula que precisa que naquela época precisava ser mantida, pois era em seu seio que se iniciava a formação do cidadão, posteriormente lapidado pela instituição escolar.

Recomendo Cazuza com louvor. Para quem é ou foi aluno ou para quem é ou deseja ser um professor. No caso dos pequenos, sua leitura é indispensável para a formação moral das crianças, pois traz questões que envolvem o cultivo das virtudes. E para os adultos, revela o papel da escola como um agente de formação e não de repressão do cidadão, mesmo mostrando os dois lados da moeda.


Observação: embora a grafia do nome do autor seja Corrêa na capa do livro, enfatizo que a forma correta é Correia, de acordo com o site da Academia Brasileira de Letras.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Resenha: A morte tem sete herdeiros


A noite em que Agatha Christie visitou Jacuruçunga

Imagine um livro em que só pelo título já o idealizamos recheado de mistérios, mortes terríveis e situações de suspense que beiram a angústia. E logo depois que o lemos, acabamos descobrindo que o mesmo não era nada daquilo que aparentava ser antes e que, involuntariamente, acabamos mesmo foi rindo de sua trama, do início ao fim e até não poder mais.

Este é o caso de “A morte possui sete herdeiros” (ou A noite em que Agatha Christie visitou Jacuruçunga), de Stella Carr e Ganymedes José. O mesmo é o resultado da união feliz de dois autores distintos que legaram ao mundo literário infanto-juvenil uma verdadeira obra-prima do suspense e do nonsense, cheia de mistérios, mas com situações surreais que beiram o absurdo, o engraçado e fazem com que o leitor ria compulsivamente enquanto está avançando as páginas da obra.

O livro gira em torno de Rogério Matta Leitão, um riquíssimo fazendeiro de uma cidade fictícia do interior do Brasil que não teve filhos em seu casamento com sua amada esposa, Sabina, mas que por conta de laços de parentesco acabou acumulando durante sua vida sete indesejados sobrinhos, cada um mais irritante e cretino do que o outro, salva uma única exceção que o leitor descobrirá ao ler.

Rogério, viúvo já há muitos anos, bate as botas subitamente. E com isso, os ambiciosos parentes esperam herdar muito com a sua morte. Porém, o que não esperavam era a existência de uma estranha cláusula do testamento: todos, sem exceções, deverão pernoitar no casarão (supostamente mal-assombrado) da família em que Rogério vivia, na noite anterior à leitura do testamento.

O que ninguém esperava (incluindo-se aí alguns amigos próximos de Rogério, sua suposta amante caolha, os cônjuges esquisitos de alguns sobrinhos e a empregada da família) era que uma série de assassinatos começasse a acontecer noite a dentro, sendo os herdeiros os potenciais alvos da sanha assassina de alguém que está entre eles, eliminando um atrás do outro e todos por meio de crimes absurdos que beiram o ridículo.

Quem seria o assassino? Qual a sua motivação? Qual das sobrinhas vendia uísque falsificado do Paraguai? Qual dos sobrinhos posava de rico, mas comia carne de cachorro desidratada para não passar fome? Onde estaria o valiosíssimo anel de diamantes de vários quilates de Tia Sabina? Quem é o misterioso vulto que anda com a bengala que pertenceu a Tio Rogério pela casa e ainda por cima vestido de Carmem Miranda? E Agatha Christie, a dama do crime, realmente participa da história?

Participa. Mas não teria a menor graça se eu contasse aqui como e por que, não é?

Ficaram curiosos? Corram logo então atrás deste livro, uma sátira muito gostosa aos livros policiais ingleses. A leitura dele será tão prazerosa, prendendo-lhes tanto a atenção que duvido que muitos de você não consigam lê-lo em apenas um único dia. É batata!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Conhecendo Dr. Guto


Leste do Rio



Vejo o Rio verde limão, azul turquesa, goiabeira, a jaca da bicicleta. Micos que descem da mata e vêm comer banana na mão, e mordem seu dedo, barulho de riacho que corre e vira pedra. Sou eu, caminhando, caminhando, que falo a vocês parados no céu: desce daí sacolé, paçoca de amendoín! Sorvete de abacate de trem vem ser feliz, ouça os bobos não, que martelam as cruzes na areia. Areia já levou as tristezas pra Yemanjá, que volta na garrafa de sidra. É, sei que é sidra pelo rótulo, mas podia ser pindorama, batida de umbu ou água do mar. Rolou e a praia virou noite. Que medo de praia. Índio de fora não tem sua Iracema ou brucutu, se for índio no fim da fila...

Barbie, baitola, isso tem no Rio? E o jacaré vem comer os bago deles? Xô caipora feia – violência. Deixa elas namorar, deixa o pastor orar e mendigo mendigar. Sua inimiga aqui é alegria! O bafo do churrasco, os bêbedos da Lapa. Carioca é a Prainha, a maconha na Maré, o Solar da Imperatriz! Hoje ela é senhora de anágua, que censura tudo que censurar. Quer Pan não, quer fumando na escada não, abaixa o som! Vai chamar a polícia! Uuuuuuuuu, pan, pan, pan, cadê o mastercard? Chama Lula, tira do mar, faz alguma coisa cabeça de camarão!!! Tu também é culpado sr. promotor,  preguiçou, ganha vinte mil por mês! O camelô vinte tostão... Grafittei errado excelência: tu dormiu na arquibancada paulista trouxa! Ah, nem turista branquelo tu é, veio de busão São Geraldo, cheio de gaiola, vencer no Maracanã.

O Janeiro é tolerante, redentor, calçadão bordado, pagode com Jazz encima da laje, zona norte, zona sul, e a oeste mata. Gente que chega no tom do avião: ser feliz e nem acordar, porque sono aqui ninguém quer, só ser marimbá! Índio pescador e pescar gente bonita, forasteira, ruiva de shoppings, uma mulata de silicone! Oh negão, qual o problema? Vejo o Rio verde limão, pedalando, sambista e pouco leitor, mas um dia a gente ainda estuda e aprende a pescar manjuba! Moro no mar, no leste do Rio, pra lá dos canhões... Pelas ondas até o Costa brava posso afirmar: o Rio mesmo é a rádio Roquete Pinto!  Beijo em todos.


Dr. Guto é um novo escritor que dá banana aos macacos e veneno a quem precisa de veneno... na definição do próprio.

Pacato advogado da cidade do Rio de Janeiro, pode ser encontrado através de duas formas no vasto mundo virtual: pelo twitter (twitter.com/drgutorj) e no site abaixo, onde o leitor interessado pode fazer o download de seu primeiro livro de crônicas, no formato e-book, cuja capa ilustra esse post.


Não deixe de conhecê-lo e de conhecer suas obras. É amigo e super gente boa. 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Resenha: A bolsa amarela


A obra-prima de uma escritora extraordinária

A gaúcha Lygia Bojunga é figurinha carimbada em todas as bibliotecas públicas do Brasil. Lembro com gosto de minhas idas à biblioteca escolar durante a infância. Lá, eu sempre via as suas obras com grande destaque nas prateleiras.

Pudera: esses livros, como descobri ao lê-los, faziam por merecer.

E nessa época gostosa da vida, li dois de seus livros: Os colegas e A Casa da Madrinha, sendo este segundo um dos livros infantis que mais me fascinaram. E o fascínio foi tanto que até hoje em dia o recomendo a amigos, mesmo que estes já sejam adultos feitos, e aos seus filhos também.

Mas, voltando à Lygia, seus livros são encantadores e intensos. Têm a capacidade de ultrapassar as barreiras da infância e encantar também as pessoas adultas, caso estas parem um pouco as suas atribuladas vidas, e resolvam esquecer por um momento os seus problemas, proponham a si a leitura dos escritos da autora. Em resumo, os livros desta ex-atriz, dramaturga, tradutora e ganhadora do principal prêmio de literatura infantil mundial (o Hans Christian Andersen, em 1982), foram feitos para a apreciação de toda a família.

“A bolsa amarela” é considerada sua obra-prima. E voltando aos tempos de biblioteca na minha infância, constatei que este livro possuía alta rotatividade de empréstimos entre os alunos da minha escola. Por conta disso, ele jamais chegou às minhas mãos, por mais curiosidade que eu tivesse a seu respeito. É por isso que somente agora, depois de adulto, é que tive a oportunidade de tê-lo em mãos e assim saber mais um pouco sobre seu teor e talvez os fatores que justificam os seus êxitos.

O livro é sobre uma menina chamada Raquel e sobre seu grande sonho: tornar-se uma escritora. Seria um alter ego infantil da autora? Penso que sim. E talvez seja até uma forma de chamar a atenção das crianças para esta profissão, pouco difundida entre as escolhas vocacionais dos mais jovens.

Mas voltando ao livro, Raquel é a caçula de quatro irmãos e todos bem mais velhos do que ela, que a ignoram por completo por ser criança. E como se isso não fosse o bastante, a menina foi fruto de uma gravidez não-esperada pelos pais, que a criam com uma certa má-vontade, sempre sendo um pouco mais exigentes com ela.

Por conta disso, Raquel vive em um mundo à parte e possui uma visão muito crítica e aguçada de sua vida como criança, tendo também uma imaginação muito fértil que a leva a criar alguns amigos imaginários que se originam nos textos que ela escreve de próprio punho, tais como o menino André, a menina Lorelai, os galos falantes Afonso e Terrível, o Alfinete de Fralda de Bebê e a Guarda-chuva .

Por causa desses estranhos amigos, Raquel quase sempre está se metendo em encrencas, principalmente com a sua intolerante família incapaz de compreender seu mundinho particular. E, por isso, cercados por adultos chatos de todos os lados (e todos grandessíssimos bisbilhoteiros que não podem descobrir de forma alguma a associação deles com Raquel,) os amigos buscam refúgio seguro, perfeito e secreto em um lugar inusitado, onde ficam livres da curiosidade alheia. Trata-se de uma enorme bolsa amarela que Raquel ganhou de presente de sua tia rica, chamada Brunilda.

Ficou curioso(a) com Raquel e seus amigos? Para saber como a história termina e como cada personagem encontra um rumo na vida, aconselho a leitura deste livro com entusiasmo. Se você é criança, absorva bem os ensinamentos que a autora lhe passa durante a história. E se é adulto, permita-se mais uma vez ser criança e aprender também estas lições, aplicando-as à sua vida atual, especialmente na forma como você lida com os pequenos e também se divertindo com a história, que é excelente e bem-humorada.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Resenha: Um mundo perfeito



Decepcionante. Um dos piores livros que li na vida.

Vi tantas resenhas positivas a respeito deste livro em uma rede de relacionamento de leitores que fiquei bastante empolgado em lê-lo, mas sem tanta prioridade a princípio. Tomei conhecimento de sua existência por meio de um recado de punho do próprio autor que, polidamente, pediu-me que adquirisse “Um mundo perfeito” e conhecesse seu primeiro trabalho.

Após alguns meses onde priorizei outras leituras e já bastante intrigado com a insistência dele para que eu lesse logo a sua obra, adquiri o livro, alimentando as melhores expectativas possíveis a seu respeito, ainda mais por conta da capa, um trabalho de arte muito bonito. Porém, a cada página lida, fui decepcionando-me gradativamente com o teor da obra, que, sinceramente, achei MUITO fraca e limitada. Por pouco não parei de lê-la completamente.

Das duas hipóteses, uma: ou alguns resenhistas daqui da rede de relacionamentos que mencionei fizeram uma espécie de propaganda previamente combinada do livro com o autor ou então são, na verdade, amigos dele que não quiseram ou que tiveram a vergonha de magoá-lo com críticas verdadeiras como esta que faço. Não consigo entender como estas pessoas podem ter achado esta obra digna de cinco estrelas e uma obra-prima do suspense e do terror.

O livro, na verdade, pertence à literatura fantástica de baixa qualidade. Leonardo Brum, o autor, como já citei, é iniciante, e me passa a impressão de que não sabe realmente o que quer escrever em determinados momentos. Demonstrou ser bastante inseguro, escondendo-se atrás de vocabulário limitado, de um padrão irritante de parágrafos curtos, típicos de livros paradidáticos e de personagens que não são e jamais serão nem um pouco cativantes. Sua sintaxe de redação é bastante primária e os erros de concordância saltaram constantemente aos meus olhos durante toda a leitura.

Na pior das hipóteses, acredito eu, os perfis que elogiam a obra são falsos, mas não tenho certeza disso, embora outros usuários da rede de leitores que freqüento, que não gostaram do livro, tenham esta mesma desconfiança, já que foram atacados sem dó e nem piedade por lá . Posso até estar sendo injusto, mas sei que, para vender seu peixe e obter lucro irrestrito, as pessoas são capazes de criar as mais ardilosas artimanhas para conseguirem seu objetivo.

Porém, considerando que muitas pessoas leram e gostaram, tudo o que nos resta dizer ou pensar é aquela velha frase que diz “gosto é gosto, não é?” Mas mesmo assim fiquei pasmo com toda essa unanimidade em torno do livro, cuja narrativa primária, crua e óbvia é claramente "inspirada" em filmes e séries de TV que quase todo mundo já conhece ou assistiu, tipo “Lost”, "Predador" ou “A Ilha da Fantasia”.

O pior de tudo é que a história deixou muitas lacunas e situações inacabadas, especialmente o destino de alguns personagens e a origem de uma misteriosa criatura monstruosa que rondava a Ilha de Pedra-Luz, o lugar onde se passa a história, que apareceu pouquíssimas vezes e depois sumiu do nada. O final, então... um verdadeiro clichê de ruindade, muito mal feito.

Indico a leitura de “Um mundo perfeito” a um público mais infanto-juvenil e principiante em literatura, que com certeza o apreciará mais, por pura diversão e/ou sem maiores neuras. Para quem faz leituras mais elaboradas e densas como eu, o conselho que dou é: fique longe.

“Um mundo perfeito" só não é um fiasco completo porque possui alguns pequenos momentos memoráveis, como o capítulo do menino que é transformado em melão, que particularmente, achei até um pouco poético.

Espero que no futuro Leonardo conscientize-se de suas limitações e passe a escrever melhor. Ou então desista de escrever de uma vez por todas, caso não tenha a humildade de reconhecer as suas limitações.

Por fim, jamais escolha um livro apenas pela sua capa. Você pode se decepcionar amargamente com isto.
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