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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Resenha: Um leão chamado Christian


Perto do coração selvagem


Este livro possui uma história bem peculiar.

Bastou apenas um vídeo de dois minutos exibido no YouTube e assitido, em apenas um mês, por mais de 4 milhões de pessoas para transformar Um leão chamado Christian num dos maiores fenômenos da internet de todos os tempos. Neste livro com mais de 50 fotos, você vai conhecer a história daquele que é considerado o leão mais “fofo” do mundo.

A história começa quando dois rapazes australianos, Ace e John, que moram na Londres de 1971, se encantam por um filhote de leão à venda numa badalada loja da cidade e decidem comprá-lo para o criar como um bichinho de estimação.

Esperto, e dócil, o leãozinho recebe o pomposo nome de Christian. E acaba transformando a vida de todos para melhor, salvas algumas dificuldades de adaptação iniciais do animal em seu novo lar, envolvendo, na maior parte delas, objetos destruídos graças às brincadeiras do pequeno felino.

Entretanto, com o passar do tempo, o leãozinho cresce. E rápido. E por conta disso, seus donos chegam logo à conclusão de que criar um leão na pequena loja onde mantém, talvez não seja algo adequado, já que envolve possíveis riscos ao animal e às pessoas. E depois de tentar infrutiferamente arranjar um novo lar para seu bichano, resolvem então pôr em prática a única opção que eles possuem: procurar alguém que os ajude a adaptar Christian à vida selvagem e enviá-lo ao continente que nunca conheceu, já que nasceu em solo inglês: a África.

Encontrando as pessoas certas depois de algum tempo, para ajudá-los em sua empreitada, John e Ace conseguem levar Christian com sucesso ao Quênia, onde é adaptado e introduzido à natureza.

Um ano depois e saudosos do animal, eles resolvem visitar Christian em seu novo lar. Mas será que foram reconhecidos pelo leão, já adulto e selvagem?

Isso você descobrirá lendo o livro. E também os muitos percalços que Christian e seus donos passaram para que sua “volta” à natureza fosse possível.

Um leão chamado Christian, na verdade, é uma reedição. O original foi lançado na época em que John e Ace já haviam devolvido Christian ao seu habitat original e o vídeo no YouTube, que você assiste logo abaixo, serviu apenas para popularizar novamente a história desse leão e para fomentar ainda mais as discussões acerca de se ter um animal selvagem como bicho de estimação, sobre o futuro de animais de circo e de colecionadores e até mesmo de animais usados para filmes. O que acontece com eles depois?

Apesar de hoje em dia existir uma preocupação maior com o bem estar dos animais, esta história continua atual e serve como um exemplo e como amostra de como o selvagem pode se aproximar do coração humano sem feri-lo e de como as pessoas podem contribuir, efetivamente, para melhorar a vida de animais que vivem em condições estranhas e desfavoráveis às suas espécies. Recomendo.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Resenha: Saudades do Século XX


Mais que um livro de memórias, um verdadeiro legado

Saudades do Século XX pode parecer exclusivamente um livro de memórias à primeira vista, ainda mais com o termo "saudades" tão destacado e onipresente no título.

Mas não se engane. O livro, realmente, é sobre recordações, mas ao lê-lo, ficou claramente explícito para mim que a finalidade maior da obra é legar a uma nova geração aquilo que Ruy Castro, o autor, apreciou em seus anos dourados de juventude e continua apreciando em idade madura.

Escritor de reputação insuspeita, Ruy é um dos melhores do Brasil no quesito biografias. E neste livro é o que não faltam, mesmo sucintas. Billie Holiday, Anita O'Day, Doris Day, Fred Astaire, Mae West, Orson Welles, Billy Wilder,  Alfred Hitchcock, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Humphrey Bogart, Glenn Miller e Frank Sinatra, com histórias de suas vidas, o esperam aqui.

Em sua obra, Ruy conta a vida desses nomes universalmente admirados do cinema, da literatura e da música popular. Vidas tão ricas e emocionantes quanto as obra que deixaram. E, em muitos casos, vidas que foram o exato oposto das imagens que eles passavam em seus filmes, livros e discos, por conta de tragédias pessoais.

Portanto você conhecerá uma Billie Holiday às voltas com drogas pesadas e casamentos infelizes, uma Doris Day implacavelmente atacada pela crítica e por seus credores, uma Mae West supostamente frígida (logo ela, uma deusa do sexo), um Orson Welles que não conseguia concluir seus projetos, mesmo sendo considerado um gênio e um Frank Sinatra com sérios infortúnios na vida amorosa e profissional.

Se você já aprecia estes artistas, excelente! Se não aprecia, recomendo que um dia resolva averiguar suas vidas por meio da leitura deste livro, que é ótimo, na minha mais sincera opinião, mesmo não trazendo relatos mais completos e detalhados das vidas daqueles que foram retratados em suas páginas. 

Saudades do Século XX, como disse antes, é um livro feito para despertar uma espécie de bom gosto nos leitores para as coisas que o autor aprecia. E espero que consiga este propósito. Confesso que após a leitura, fiquei interessadíssimo em saber um mais a respeito da vida destas pessoas e também sobre suas dignas contribuições para tornar este mundo um pouco mais melhor.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Resenha: Crianças Como Você


Uma emocionante celebração da infância no mundo

Celina, do Brasil, ajuda nos afazeres de casa todos os dias buscando água com seus irmãos em um poço próximo do lugar onde vive. Sabah, da Jordânia, tem um pai, duas mães e vinte e três irmãos. Bogna, da Polônia, adora fazer fantoches e máscaras, especialmente na época de Carnaval. Na casa de Ari, na Finlândia, há uma sauna que ele e sua família usam duas vezes por semana. Meena, uma menina pobre da Índia, é um tanto vaidosa: usa óleo nos cabelos para deixá-los brilhantes e também pinta suas unhas com henna, uma espécie de corante natural. Taylor, dos Estados Unidos, coleciona adesivos e quer ser bombeiro ou um Power Ranger quando crescer.

Quem nunca reservou um único momento de sua vida para imaginar como pessoas de outros países vivem. Imaginar o que fazem no dia-a-dia, o que comem, o que bebem, como se divertem, como são suas casas.. Qualquer um que traga dentro de si o espírito de cidadão do mundo já deve ter passado horas, minutos e quem sabe até segundos devaneando a respeito do assunto.

Por meio deste livro, tal curiosidade pode ser saciada. Embora seja direcionado aos pequenos, como o título sugere, Crianças Como Você, de Barnabas e Anabel Kindersley, pode ser lido tranqüilamente por pessoas das mais diversas faixas etárias. Em relação a mim, caiu como uma luva quando resolvi fazer pesquisas para escrever meu primeiro livro, cheio de personagens do mundo inteiro.

Nesta obra, crianças de verdade falam e escrevem sobre sua vida e seu jeito de ser. E o melhor de tudo é que cada relato é ricamente ilustrado. Não apenas descobrimos peculiaridades a respeito das crianças, como também vemos. Pudera, já que os pequenos apreciam muito livros com figuras. E neste, elas não faltam.

Os autores fizeram um trabalho minucioso, rico, onde Barnabas fotografou e Anabel entrevistou as crianças. Surpreendente e emocionante, o livro é um marco: fez uma viagem pelas diferentes culturas do mundo mostrando o cotidiano dos menores nos mais variados países como ninguém havia feito antes.

Por ter sido editado em associação com o Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, a compra deste livro reverte fundos para projetos da instituição no mundo todo. Portanto, se você pretende unir o útil ao agradável, adquira o seu nas melhores livrarias.

E descubra que os relatos contidos nesta obra representam muito mais do que simples viagens. Cada um deles, na verdade, retrata uma verdadeira comunhão com o mundo, nos aproximando ainda mais daqueles que muitas vezes consideramos diferentes de nós. Mas que em um contato mais profundo e minucioso, revelam ser mais parecidos com a gente do que imaginamos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Resenha: Freddie Mercury



Singelo relato de amor

Sem maiores alardes na imprensa mundial, no dia 04 de janeiro de 2010, Jim Hutton deu seu último sopro de vida em terras irlandesas. Tinha apenas 60 anos de idade.

Jim era uma pessoa comum como muitas outras da classe operária inglesa. Trabalhava regularmente como barbeiro em um hotel, fazia alguns bicos aqui e ali pela cidade de Londres e nas horas de folga, costumava freqüentar um clube gay londrino da moda com alguns amigos que eram homossexuais como ele. Sua vida mudou então no dia em que Freddie Mercury cruzou o seu caminho, sem ser anunciado.

Apesar de uma certa resistência inicial da parte de Jim, em pouco tempo ele e Freddie engataram um romance. E foi um amor tão bonito (mesmo com alguns momentos de dúvida em que quase se separaram de vez), que acabou durando até a morte de Freddie, em 1991. 

Os últimos anos da vida de Freddie Mercury são contados, então, por Jim Hutton (com a supervisão do escritor e jornalista inglês Tim Wapshott), neste livro. Relatado com simplicidade e sem meias palavras, a obra desvenda o universo íntimo do cantor, os bastidores do Queen (a consagrada banda de Freddie) e a paixão de um homem simples por um grande, reluzente e ofuscante astro do rock. Não se trata de uma biografia completa de Freddie, mas um relato detalhado do relacionamento de Jim e Freddie, sob a ótica do primeiro, de uma forma até bem simplória e mal escrita em alguns momentos. 

O livro mostra alguns momentos polêmicos da vida dos dois, como o consumo de drogas por parte de Freddie, as "puladas de cerca" ocasionais que este dava com outros parceiros sexuais e a vida desregrada que vivia em algumas fases "negras" de sua vida. Porém, também encontramos momentos singelos do casal, como as horas destinadas aos gatos que criavam juntos como se fossem filhos, ao lago de carpas japonesas que planejaram e construíram de comum acordo e principalmente ao jardim da casa em que viviam, cuidado com zelo e esmero pelo próprio Jim, que amava plantas e flores. O livro possui também algumas passagens bem engraçadas, como por exemplo alguns eventos insólitos ocorridos durante as gravações do videoclipe da canção "The Great Pretender", da carreira solo de Freddie, onde este aprontou muitas brincadeiras com os envolvidos na produção. E há, claro e inevitavelmente, os momentos tristes, especialmente aquele em quando Freddie descobre ser portador do HIV e alguns que antecederam o seu falecimento.

Brian May, guitarrista do Queen definiu Jim Hutton da seguinte forma, na ocasião de sua morte no início de 2010: "Jim era uma alma calma e gentil, impressionado e fracamente animado com as maquinações da fama, rock and roll, e do Queen, e que assim proporcionou ao Freddie uma visão agradável e diferente da vida." Portanto, se você acha que este livro  se trata de um potencial caça-níqueis ou uma clara demonstração de oportunismo da parte de Hutton, lembre-se das palavras de May se resolver um dia lê-lo.

Para os fãs de Queen e de Freddie, este livro é item obrigatório, mesmo sendo sentimental e meloso em algumas de suas passagens e tendo, em sua versão brasileira, os (argh!) chatos e desnecessários depoimentos dos fãs ao término de cada capítulo, descaracterizando um pouco a obra. E para quem não é fã, vale como uma fonte valiosa de informações sobre a intimidade de um dos maiores artistas do século XX. Recomendo, mesmo com algumas ressalvas.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Resenha: A vida secreta dos grandes autores


O que nossos professores de literatura nunca contaram 
sobre romancistas, poetas e dramaturgos em suas aulas

Você já deve, em algum momento de sua vida, ter imaginado como é a vida do autor que você mais gosta ou admira, não é?

Confesso que muitas vezes já devaneei sobre alguns deles. Já visualisei J. K. Rowling aproveitando os confortos de sua mansão milionária, Neil Gaiman caminhando por florestas buscando inspiração para seus livros e até  Suehiro Maruo visitando suspeitíssimos clubes de sadomasoquismo.

O caso é que quase sempre os chamados 'leitores vorazes', aquelas pessoas que gostam mesmo de ler estão às voltas com a vida pessoal de algum escritor favorito seu, ora imaginando-a cheia de glamour, ora achando-a pacata e tediosa até demais, especialmente quando o autor é daqueles que levam bastante a sério o seu compromisso de escrever, priorizando mais o verbo trabalhar e menos o verbo divertir em suas vidas, por conta de uma série de compromissos a cumprir.

Entretanto, eles são pessoas comuns como todos nós, ou seja, são essencialmente seres humanos, dotados de qualidades e defeitos. E a função deste livro de Robert Schnakenberg, ilustrado magistralmente por Allan Sieber (praticamente um co-autor) é tentar desmistificar estes seres que tanto amamos ou admiramos, mesmo conhecendo-os apenas superficialmente.

A vida secreta dos grandes autores, é um livro bastante agradável e de fácil leitura que mostra resumidamente os defeitos, as fraquezas e as fragilidades humanas sobre as quais nunca se falou a respeito de grandes nomes da literatura mundial, escolhidos criteriosamente pelo autor, como Virginia Woolf (que escrevia seus livros em pé), Franz Kafka (que tinha fama de nudista), Agatha Christie (que odiava seu personagem mais querido do público, Hercule Poirot) e muitos outros mais.

Curioso(a)? Eu também fiquei bastante intrigado com as informações que o livro poderia me legar. Embora os relatos contidos nele sejam bastante superficiais, não citando fontes e soando mais como uma compilação de boatos, Robert Schnakenberg conseguiu despertar meu interesse de leitor e fã de determinados autores, imaginando se não haveria um pouco de veracidade nestas informações. É um livro para se ler de uma só sentada, mais como forma de diversão do que informação.

Por fim, as únicas ressalvas que faço à obra além da sua superficialidade são suas notórias lacunas quanto à escolha dos autores 'investigados', que muito limitada, deixou de fora nomes mais recentes da literatura e escritores de língua portuguesa ou qualquer outro idioma que não seja o inglês, o francês, o espanhol e o alemão.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Resenha: As mulheres mais perversas da História



A perversidade também usa esmalte e batom

As mulheres são consideradas por muitos como o sexo frágil, incapazes de ferir uma mosca. Entretanto, muitos leitores mudarão de idéia ao ler as páginas deste livro.

No decorrer da História sempre ficamos a par dos grandes feitos dos homens e do caráter deturpado de muitos deles. Com o gênero feminino não poderia ser diferente neste As mulheres mais perversas da História, da americana Shelley Klein.

Ele traz consigo histórias de crimes cometidos por um seleto rol de mulheres que viveram em várias épocas e lugares distintos. Grande parte de seus crimes foram realizados com tantos requintes de perfídia e crueldade que jamais atribuiríamos estas atrocidades às mesmas, tais como assassinatos de bebês, de familiares próximos, amigos, alguns assassinatos em série e cumplicidade em crimes que foram cometidos por seus parceiros de alcova.

Os casos do livro seguem um roteiro bem nítido, começando sempre com um relato breve da história da criminosa, como vida pessoal, as formas como iniciou e progrediu em sua carreira de crimes e a eles relacionados, que nem sempre são minuciosos, especialmente a respeito das investigações, o que fica bem notório nas trajetórias de criminosas como Agripina (a Jovem) e Valéria Messalina, que viveram no império romano.  

Algumas lacunas também podem ser verificadas também em certas passagens do livro, como o destino de algumas pessoas envolvidas em boa parte dos casos, detalhes importantes sobre alguns crimes, que foram narrados de forma superficial, sem falar no quesito tradução, que demonstrou algumas precariedades. Mas, no geral, o livro excede expectativas. Sua leitura é bem dinâmica e acredito que prenda o leitor interessado, pois me prendeu completamente. Curiosidade às vezes é algo muito mórbido.

Além de Messalina e Agripina, encontramos aqui as histórias das imperatrizes Catarina da Rússia, Tsi-Hi, da China, da Rainha Ranavalona I de Madagascar, da primeira-dama romena Elena Ceausescu (famosas por promoverem genocídios em suas nações), das cidadãs comuns Lizzie Borden (carrasca do próprio pai e da madrasta), Aileen Carol Wournos (a primeira assassina em série da história dos Estados Unidos), Rose West (famosa na Inglaterra por sua casa de horrores), Marie Noe (que matou envenenados todos seus sete filhos) e muitas outras mais, num total de quinze.

Fazendo um parênteses aqui, confesso que senti a falta de uma perversa bem notória neste livro, a condessa romena Erzsébet Báthory, famosa pela alcunha nada lisonjeira de ”Condessa Drácula”, graças a imensa crueldade com que matou centenas de mulheres residentes em seu condado e adjacências para beber-lhes o sangue, em busca de eterna juventude. Porém, notória ausência é explicada pelo fato de sua história ter entrado em outro livro similar, da mesma editora que foi lançado praticamente na mesma época, chamado Os mais perversos da História, da autora Miranda Twiss, que retrata tanto homens como mulheres que ficaram famosos por suas perversidades. E, pela variedade de títulos que se seguiram sobre seres perversos após estes livros, acredito que originalmente os mesmos fazem parte de uma mesma série de livros em seu país de origem, os Estados Unidos.

Por fim, fica um conselho para quem quiser arriscar a leitura desse livro: prepare seu estômago e prepare principalmente o seu espírito, pois o relato da vida destas mulheres nos causa repulsa, consternação e até mesmo piedade em alguns casos.  Suas existências e seus feitos servem apenas para provar que a maldade não tem sexo, idade, raça e nem orientação sexual. Ela existe. Nos espreita sorrateiramente  e cruza nossos caminhos quando menos se espera.

Este é um livro muito bom. Mas recomendado apenas para quem gosta do tema.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Trecho + Resenha


"Cada par copiava um mesmo trecho de prosa e vencia o aluno que apresentasse a letra mais bonita. O prêmio que se lhe dava era meter-lhe na mão a palmatória para que castigasse o vencido com uma dúzia de “bolos”. O professor chamou o meu nome e o nome do Doca. Aproximamo-nos da grande mesa. Eu tremia. Durante três minutos o velho examinou e comparou as duas escritas. Depois disse:
As duas letras são bem parecidas. Não se pode dizer que uma seja melhor do que a outra. Ambas são boas.
E lançou o julgamento:
“Empate”.
Respirei livremente.
O professor entregou-me a palmatória.
“Para que isso?”, perguntei.
“Para que há de ser?”, disse-me. Os dois não empataram?”. Você dá seis ‘bolos’ nele, e ele lhe dá seis ‘bolos’”.
Achei aquilo um disparate. Olhei o velho com surpresa.
“Que é que você está olhando?”, roncou ele asperamente.
A minha língua travou.
“Não posso compreender isso!, exclamei. Por que houve empate? Porque o Doca tem letra boa e eu tenho letra boa. Então quem tem letra boa apanha?”
João Ricardo ergueu-se da cadeira com um berro.
“Não quero novidades! Sempre e sempre foi assim. Atrevido! Quem é aqui o professor?
E entregou a palmatória ao Doca."

[Trecho de Cazuza, Viriato Corrêa]


Não é novidade para ninguém que no dia 15 de outubro, no Brasil, comemora-se, (aparentemente) o dia do professor.

Enfatizo o aparentemente porque como ex-membro da categoria, percebo que a cada dia que passa, os mestres desta nação têm muito pouco a comemorar, seja por conta de salários irrisórios que recebem por aulas dadas, ou por conta das inúmeras dificuldades que passam no exercício diário de sua profissão, onde, cada vez mais e com maior freqüência percebemos os mesmos tornando-se reféns de situações bizarras e absurdas que põem em risco tanto as suas reputações como profissionais quanto suas próprias vidas, quando geralmente têm de lidar com alunos problemáticos que são oriundos de núcleos familiares desestruturados que cada vez mais pipocam Brasil afora.

O fato é que o descaso das autoridades com a educação, setor que deveria ser tratado com alta prioridade neste país, está cada vez mais notório. Outrora uma profissão de status na sociedade, hoje em dia quase ninguém deseja tornar-se mais professor, o que não deixa de ser uma grande lástima. Penso que se um dia este país realmente deseje mostrar ao mundo que é desenvolvido, merecendo figurar entre os melhores do mundo, deve priorizar não só suas diretrizes educacionais, mas também valorizar ainda mais os profissionais que trabalham nas linhas de frente deste segmento, ou seja, os seus mestres.

Realmente são poucas as pessoas de hoje que (como nós um dia já idealizamos) abraçam com fervor a vontade e o desejo de exercer a profissão, possivelmente alimentando também no peito o secreto desejo de tornar o mundo um lugar melhor, seja proporcionando seus conhecimentos ou suas lições de vida a futuros cidadãos brasileiros ávidos por saber. Também são poucos os exemplos de profissionais em que professores aspirantes podem se espelhar, por conta deste caos instituído e enraizado no meio educacional, já que muitos mestres do agora não são nem a sombra de muitos que já existiram nos tempos de outrora, especialmente os de nossa época de estudantes, modelos irrepreensíveis com os quais convivemos em nossa vida escolar e que de certa forma nos influenciaram em nossas escolhas da vida. Isso sem mencionar aqueles que também conhecemos através de filmes como "Sociedade dos Poetas Mortos", canções como "To Sir With Love" (Lulu) e principalmente por meio dos livros que um dia lemos.

E aproveitando o gancho da data, como uma forma de homenagear os mestres do país, resolvi que hoje  o trecho e a resenha inéditos que posto aqui no blog estão relacionados aos professores, em especial com alguns modelos que conheci ainda na infância, ao ler certo dia, um livro aparentemente simplório chamado Cazuza, de um autor que, na época, jamais tinha sequer ouvido falar antes: Viriato Correia.

Segundo sua biografia, o maranhense Viriato foi professor, jornalista, contista, romancista, teatrólogo, dramaturgo, autor de uma série de livros infanto-juvenis e membro da Academia Brasileira de Letras. Com seu único romance de destaque, “Cazuza”, o escritor faz uma crítica à escola do início do século, que ainda conservava o ranço do Império, ou seja, o modelo ultrapassado onde os alunos, em classe, apenas ouviam a voz do professor e nada opinavam, principalmente em estabelecimentos de ensino de pequenos vilarejos espalhados pelas cidades do interior. O docente, portanto, nesta época, constituía a única pessoa na sala com o poder absoluto da palavra. Só ele falava e as crianças apenas ouviam e copiavam suas lições, no mais completo silêncio. Se porventura respondessem de forma errada ou dessem um passo em falso, eles, os alunos, apanhavam, como o que acontece com o protagonista, que acaba ficando com mãos inchadas e sangrentas em uma das passagens mais dramáticas da obra.

Cazuza foi lançado no Brasil em 1938 e segundo Viriato, em prévia introdução ao texto, se trata de um romance autobiográfico de um estranho que o autor conhecia apenas de vista e do qual jamais soube o nome verdadeiro. Ressalta ainda que recebeu em mãos os originais do misterioso indivíduo em sua casa e depois disso nunca mais teve notícias do sujeito, que na vizinhança era conhecido apenas por seu apelido, Cazuza, uma alcunha tipicamente brasileira e bastante comum entre as crianças da época e do lugar onde ele vivia, a região Nordeste do Brasil.

Basicamente, o livro narra as doces e amargas experiências escolares do misterioso Cazuza, desde seus primeiros anos escolares, onde é alfabetizado por João Ricardo, o cruel e autoritário professor da escola do povoado onde o garoto nasceu passando depois pelos cuidados da maternal Dona Neném quando este se muda para a Vila. Por fim, a narrativa nos leva até os dias de Cazuza como aluno interno em um colégio da capital do Estado, São Luís, convivendo assim, nesta breve passagem de sua vida, com tipos humanos bastante distintos, entre professores e alunos, facilmente divididos entre pessoas cativantes e inesquecíveis e pessoas, infelizmente, intoleráveis e repugnantes.

Mas, mesmo não sendo o autor real do livro, que transborda de carisma e simplicidade, Viriato ajudou a criar um belo romance sobre o processo de crescimento físico e amadurecimento emocional de uma criança por meio de suas impressões pessoais no meio acadêmico, focando sempre em uma visão crítica sobre a pedagogia do antigamente, onde castigos físicos impostos aos estudantes e outras práticas abomináveis de disciplina rígidas eram adotadas por muitos estabelecimentos educacionais, especialmente os da década de 30, quando o Brasil se encaminhava para as políticas do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Foi nesse contexto político e ideológico que o livro Cazuza foi elaborado. Destinado às crianças, a obra traz, em um tom fortemente didático, questões que envolvem a moral e o enaltecimento de virtudes, que devem a todo custo ser seguidas, tais como a tolerância, a generosidade, a obediência, o respeito e a piedade, da mesma forma como o repúdio aos vícios, sendo os principais a mentira, a soberba, o autoritarismo, além, claro da exaltação máxima ao amor pela família, célula que precisa que naquela época precisava ser mantida, pois era em seu seio que se iniciava a formação do cidadão, posteriormente lapidado pela instituição escolar.

Recomendo Cazuza com louvor. Para quem é ou foi aluno ou para quem é ou deseja ser um professor. No caso dos pequenos, sua leitura é indispensável para a formação moral das crianças, pois traz questões que envolvem o cultivo das virtudes. E para os adultos, revela o papel da escola como um agente de formação e não de repressão do cidadão, mesmo mostrando os dois lados da moeda.


Observação: embora a grafia do nome do autor seja Corrêa na capa do livro, enfatizo que a forma correta é Correia, de acordo com o site da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Resenha: Eu queria tanto, ainda viver



Entre em um sebo e busque por esse livro

"Eu queria tanto, ainda viver" é fruto de uma co-edição entre a Comunidade Luterana Letã e a Editora da Biblioteca do Exército do Brasil e há muito tempo não é editado no mercado literário de nosso país, sendo encontrado atualmente apenas em sebos.

Li este livro no finalzinho da minha infância, emprestado por uma amiga desta época e no decorrer dos anos nunca me esqueci dele, pois confesso que tocou tanto meu coração e mexeu tanto com as minhas emoções que muitas lágrimas derramei com a história. E agora, já depois de adulto, resolvi resgatá-lo das cinzas do tempo e lê-lo novamente a fim de saber se ele ainda me causaria a mesma impressão de outrora. 

Desta vez, o efeito que me causou foi bem mais ameno, talvez pela familiaridade que, infelizmente, tenho hoje em dia com questões que envolvem crimes e atrocidades que envolvem a raça humana. Embora esteticamente limitado, a mensagem deste livro ainda permanece intacta e mais atual do que nunca, afinal a crueldade humana e a obsessão pelo poder existem e parecem estar muito distantes de terem um fim.

A obra conta a história de Rutina U., chamada carinhosamente por seus familiares e amigos pelo hipocorístico 'Ruta'. Nascida na Letônia, uma das três províncias do Mar Báltico (ao lado de Estônia e Lituânia), Ruta e seus familiares foram forçosamente removidos de sua nação, dominada pelos Soviéticos, para ir trabalharem em condições escravas, exaustivas e desumanas em campos de concentração da Sibéria.

Assim, enfrentando o frio inclemente, a falta de uma moradia digna, de assistência médica, a luta pelo pão de cada dia, a perda de familiares no decorrer do processo, presenciamos o crescimento físico e psicológico de Ruta, que por meio de anotações em um diário rudimentar procura manter-se forte e mentalmente sã, registrando todos os horrores pelos quais passa, junto de parentes e amigos.

"Eu queria tanto, ainda viver" surgiu das páginas deste diário. Trata-se de uma obra pungente, que retrata como nenhuma outra os horrores de um regime totalitário e injusto, e sua influência nefasta na vida de pessoas que perderam, forçosamente, suas liberdades, vontades próprias e suas vidas. A publicação deste livro foi uma das últimas vontades de Ruta, antes de partir deste mundo.

Para quem quer conhecer profundamente aspectos sobre  a ambição, a sordidez, a crueldade e injustiça humanas, recomendo a procura e a leitura deste livro, impregnado de situações chocantes, revoltantes e comoventes. 

E que essa leitura traga a mente de quem lê a consciência dos males que assolam o mundo
 .

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Resenha: 1808


Vale a pena ser conferido


O livro surpreende seu leitor pela riqueza de detalhes graças ao rigoroso processo de pesquisas que lhe deram vida, envolvendo fontes oficiais (do Brasil e de Portugal) e não-oficiais, retiradas de diários particulares de pessoas importantes ou semi-anônimas que viveram no século XIX, como artistas, marujos e comerciantes, a maior parte deles com ligações estreitas com a família real portuguesa.

E falando nesta, confesso que ri bastante com ela e demais pessoas da corte, com seus hábitos estranhos, suas manias e peculiaridades bizarras, como as possíveis infidelidades da princesa Carlota Joaquina, os surtos de D. Maria I e as gulodices de D. João VI, que mesmo carregando má fama, foi um soberano exemplar em alguns momentos.


Também refleti bastante lendo o livro, principalmente sobre as influências destes primeiros anos de civilização brasileira que, de certa forma, refletem o que somos hoje. A postura pacata diante das injustiças sociais, o moralismo exacerbado com algumas questões (principalmente quando envolvem costumes e religião), o descaso com educação, a produção científica e com o pensamento livre são heranças indesejadas do povo português.


A colonização portuguesa em si foi uma via de mão dupla. Da mesma forma que eles nos tiraram muitas riquezas, sugamos da metrópole as bases que tornaram o Brasil uma grande civilização. Se D. João VI e sua família não tivessem vindo para o Brasil, provavelmente estaríamos bastante atrasados na escala evolutiva das nações, ou na pior das hipóteses, nem seríamos uma.


O livro só peca com algumas repetições desnecessárias do autor em alguns assuntos. No geral, excede as expectativas. Recomendo a todos que gostam do tema História ou que gostam de fugir um pouco de livros de ficção.
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