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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Poesia (XI)



Receita de ano novo 
  
Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 
Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumidas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 
Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.

[Carlos Drummond de Andrade]

Poesia perfeita escolhida pela amiga Rosa Santana, de Goiânia, GO,
para finalizar as atividades do blog este ano. Feliz 2011, Rosinha!
E um Feliz Ano Novo a todos! Obrigado por tudo!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Poesia (II)


A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas, 

Vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo? 

Posso, sem armas, revoltar-me? 

Olhos sujos no relógio da torre: 

Não, o tempo não chegou de completa justiça. 

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. 

O tempo pobre, o poeta pobre 

fundem-se no mesmo impasse. 

Em vão me tento explicar, os muros são surdos. 

Sob a pele das palavras há cifras e códigos. 

O sol consola os doentes e não os renova. 

As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. 

Vomitar esse tédio sobre a cidade. 

Quarenta anos e nenhum problema 

resolvido, sequer colocado. 

Nenhuma carta escrita nem recebida. 

Todos os homens voltam para casa. 

Estão menos livres mas levam jornais 

e soletram o mundo, sabendo que o perdem. 

Crimes da terra, como perdoá-los? 

Tomei parte em muitos, outros escondi. 

Alguns achei belos, foram publicados. 

Crimes suaves, que ajudam a viver. 

Ração diária de erro, distribuída em casa. 

Os ferozes padeiros do mal. 

Os ferozes leiteiros do mal. 

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. 

Ao menino de 1918 chamavam anarquista. 

Porém meu ódio é o melhor de mim. 

Com ele me salvo 

e dou a poucos uma esperança mínima. 

Uma flor nasceu na rua! 

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. 

Uma flor ainda desbotada 

ilude a polícia, rompe o asfalto. 

Façam completo silêncio, paralisem os negócios, 

garanto que uma flor nasceu. 

Sua cor não se percebe. 

Suas pétalas não se abrem. 

Seu nome não está nos livros. 

É feia. Mas é realmente uma flor. 

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde 

e lentamente passo a mão nessa forma insegura. 

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. 

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. 

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


[Carlos Drummond de Andrade]
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