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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Resenha: Água para elefantes


Longe de ser mais um livro meloso


Eis uma obra que a princípio eu não teria a menor vontade de adquirir e ler. Primeiro por aparentar ser mais um dos muitos e terríveis livros água com açúcar que abarrotam as prateleiras das livrarias. Aqueles que, muitas vezes são recheados de histórias inverossímeis e irreais que são mais indicadas para um público mais juvenil e menos seletivo. Segundo, porque foi adaptado para o cinema tendo o insosso ator Robert Pattinson como protagonista...

Mas, ganhei de presente. E, "como cavalo dado não se olham os dentes", resolvi tirar uma tarde para dar uma 'folheada' no livro, sem maiores compromissos. Só que a folheada acabou se tornando uma das leituras mais prazerosas que já tive nos últimos tempos.

Água para elefantes, terceiro livro da canadense Sara Gruen tem romance, claro. Mas também aborda temas que são populares e fascinam muito as pessoas, como o mundo dos circos e a paixão dos seres humanos pelos animais, mas sob uma ótica completamente desprovida de glamour, voltada mais para os bastidores dos espetáculos e longe dos picadeiros, onde vemos seres racionais e irracionais vivendo na mais completamente precariedade, considerando que vivem em terríveis tempos de recessão econômica.


A história se passa em dois tempos distintos: em (indefinidos) dias atuais e no começo dos anos 30, nos Estados Unidos, logo após a quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929. O protagonista dela é um senhor nonagenário de ascendência polonesa que vive em um abrigo para idosos, chamado Jacob Jankowski. Com ele, e bastante nítidas, também vivem as reminiscencias de seu passado.


Aos 23 anos, Jacob era um promissor estudante de veterinária. Mas sua sorte muda quando seus pais morrem num acidente de carro, lhe deixando completamente desamparado. Órfão, sem dinheiro e sem ter para onde ir, ele deixa a faculdade antes de prestar os exames finais e acaba pulando em um trem em movimento, pertencente ao Circo dos Irmãos Benzini, o Maior Espetáculo da Terra.

Admitido com uma certa má vontade para cuidar dos animais, já que todos vivem tempos difíceis, Jacob sofrerá nas mãos do implacável "Tio" Al, o empresário tirano do circo, e de August, o mentalmente perturbado chefe do setor dos animais.


É também sob as lonas dos Irmãos Benzini que Jacob vai se apaixonar duas vezes: primeiro (e perigosamente) por Marlena, a bela estrela do número dos cavalos e esposa de August, e depois por Rosie, a elefanta aparentemente estúpida que deveria ser a salvação do circo.


A história lhe soa interessante? Embora não seja tão inovadora à primeira vista, garanto que a mesma é comovente e prende o leitor do início ao fim, suscitando-lhe emoções diversas, que oscilam entre a angústia, a ternura e o ardente desejo por um final feliz.

Se a história termina bem, cabe a você descobrir. Pelo seu poder em comover, recomendo-a com entusiasmo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Resenha: O bom Jesus e o infame Cristo


O "salvador" e  a sombra que o acompanha


Phillip Pullman, um ateu confesso, é famoso no mundo inteiro por sua trilogia "Fronteiras do Universo", onde, por meio de uma espécie de fábula inserida no mundo real, questiona a religião cristã e suscita dúvidas sobre a onipresença, a onipotência e a onisciência de Deus.


Com este livro, não poderia ser diferente. Despreocupado com a repercussão negativa de seus livros entre fundamentalistas religiosos, desta vez ele resolve extrapolar um pouco e eleger, como alvo de suas críticas, o filho do "Homem" - Jesus Cristo. Ou melhor dizendo, os filhos do homem, os irmãos gêmeos Jesus e Cristo.


Hã? Como?


Isto mesmo, não estranhe. Nesta história de Philip, Maria dá à luz dois gêmeos – Jesus e Cristo. Um, descrito como “forte e saudável”, e o outro, como “pequeno, fraco e de aspecto doentio”.


As distinções entre os dois irmãos vão ficando mais evidentes no decorrer da história. Jesus é extrovertido, travesso e querido pelas outras crianças e Cristo, um menino reservado e meio misantropo que captura para si a preferência e a proteção da mãe.


Já adultos (já que pouco se conhece sobre a real juventude do filho de Deus) e após uma peregrinação no deserto, observamos Jesus iniciar suas pregações ao público, enquanto Cristo, sempre à sombra do irmão, dispõe-se a observar seus discursos e fazer anotações sobre tudo o que ele faz. E é a partir disto que o autor arquiteta a finalidade principal do livro: mostrar ao leitor a inconsistência da Bíblia e dos relatos nela contidos, especialmente os do Novo Testamento, que narram a vida do 'Messias'. Na história, observamos Cristo passar a ser orientado por um misterioso desconhecido para aumentar, manipular e até a inventar fatos grandiosos relacionados ao seu irmão, tornando-o assim cada vez mais popular.


O bom Jesus e o infame Cristo é um livro bem escrito, simples e de fácil leitura. Inspira reflexões sobre diversos mitos que se criaram em torno do cristianismo e apresenta uma versão diferente e plausível da vida terrena do filho de Deus, tornando-o justamente o que provavelmente sempre foi: um ser humano normal, com suas qualidades e seus defeitos.


Em uma época em que se acentua o conflito entre ateus e religiosos, entre os que acreditam ou não em Jesus Cristo, temos uma oportunidade preciosa para parar, ler e refletir sobre o tema.


O livro, portanto, é um meio de dar calor a um debate ou pode ser encarado como uma via que pode levar seus leitores a um caminho de luz, especialmente aqueles que ainda questionam sua religião (se for a cristã), sua fé ou até mesmo os seus propósitos neste mundo.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Resenha: Lendas e Mitos do Brasil


O melhor do imaginário nacional

Lendas e Mitos do Brasil, de Theobaldo Miranda Santos, é o livro mais completo sobre histórias de nosso folclore que já li. Recomendo.

Esta "pequena grande obra", em tempos de criança e nas horas prazerosas dedicadas a biblioteca escolar, era uma das minhas favoritas do recinto, sendo lida e relida exaustivamente ao longo dos anos. A capa, inclusive, não era esta verde-amarela atual. Ela trazia, originalmente, um risonho e convidativo saci desafiando-nos a mergulhar de cabeça em todos os mistérios que o livro continha.

Aliás, contém. Dividido em cinco partes, Lendas e Mitos do Brasil traz aos leitores as lendas e mitos mais conhecidos e divulgados em cada uma das cinco regiões brasileiras: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, oriundas da sabedoria e das tradições de três povos distintos que deram origem a todos os brasileiros: os índios, naturais da terra, os negros, vindos da África e os brancos, que vieram de Portugal.

Portanto, na região Norte encontramos mitos como o da Iara (Mãe d'água), da Vitória-Régia, do Uirapuru, do Curupira, da Criação da Noite, do Japiim (pássaro que inclusive dá nome ao bairro onde moro), do Guaraná e muitos outras mais, de origem indígena.

Na região Nordeste já conhecemos então mitos de natureza mais européia, como o do Lobisomem, do Barba Ruiva, da Cidade Encantada, do Pecado da Solha, etc.

No Centro-Oeste, contos variados, destacando-se A Mula-Sem-Cabeça, A Origem das Estrelas, A Mãe do Ouro e a história terrível do Moleque Amaldiçoado (Romãozinho).

O Sudeste contribui com lendas de teor mais histórico, geralmente ligados às missões que os bandeirantes paulistas desempenhavam no período colonial brasileiro. Portanto, nesta parte você conhecerá O Filho do Trovão (Caramuru), A História de Chico Rei, O Segredo de Robério Dias,  lendas envolvendo milagres de São Sebastião e Nossa Senhora da Glória e muito mais.

Por fim, o Sul nos lega alguns de seus mitos mais populares, como o Boitatá, a história d'O negrinho do Pastoreio, o Nascimento das Cataratas do Iguaçu, as origens da Erva-Mate e um de seus mais populares, a Lenda do Lagarto Encantado (a Teiniaguá)

Adquira já o seu, caso aprecie histórias do tipo. A diversão será garantida para crianças e adultos, que juntos também ganham mais em saber e cultura relacionados à sua pátria-mãe.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Resenha: A viagem de Théo


Viajar é conhecer

Em tempos de guerras e desentendimentos pelo mundo afora, muitas vezes motivadas pela intolerância entre as pessoas, falar ou escrever sobre religião é algo complicado. Mas, é inegável o fato de que o tema, apesar de difícil para alguns, é fascinante para outros. 

Por que então muitas pessoas acreditam na existência de seres supremos capazes de controlar seus destinos? Por que algumas pessoas também insistem em não acreditar nestas deidades? Foi motivada por essas perguntas que a escritora francesa Catherine Clément escreveu o livro A Viagem de Théo, também conhecido como O Romance das Religiões.

Com um enorme conhecimento da causa, devido às incansáveis pesquisas realizadas para que esta sua obra fosse possível, Catherine deu vida a Théo, um pré-adolescente que nasceu e que vive em Paris, França.

Ao contrário de outros meninos de sua idade, ávidos por aventuras ao ar livre e desafios radicais, Théo é melancólico e recluso, vivendo preso aos ínumeros livros que mantém em seu quarto, para a perplexidade de seus pais e algumas pessoas próximas, que gostariam de vê-lo mais solto e sociável.

Mas o que aparentemente parecia irremediável começa a se transformar quando Théo é diagnosticado com câncer de natureza maligna e terminal. E em seus momentos de dor e solidão auto-infligida, ele começa a se questionar qual seria o sentido da vida, ainda mais para ele, que nunca professou qualquer tipo de religião por ser filho de pais ateus.

É nessa deixa que surge na história a riquíssima irmã de seu pai, a cosmopolita e espertíssima Tia Marthe, que lhe faz a inusitada proposta de viajar mundo afora e buscar respostas para as suas indagações. Juntos visitarão os berços das principais religiões do mundo, como o Vaticano, em Roma (catolicismo), Varanasi, na Índia (hinduísmo), Jerusalém, em Israel (judaísmo) e muitos outros lugares. Até onde eles conseguirão ir juntos e o que Théo e sua tia aprenderão com essa jornada?

Cabe a você, leitor, descobrir, ainda mais se gosta do tema, se é espiritualizado ou se simplesmente ama obter conhecimentos sobre outras culturas ou assuntos relacionados a viagens pelo mundo afora. Na época em que li o livro (final dos anos 1990), quando era mais jovem, gostei muito da história, apesar de achar o estilo da autora um pouco didático e maçante em alguns momentos da trama. Porém, apesar da lentidão, a história de Théo prendeu-me do começo ao fim.

Portanto, se for do seu interesse, não perca mais tempo: vamos viajar?

Considerando que cada livro que lemos é uma verdadeira viagem, tenho certeza que esta aqui será bem fácil e prazerosa de se encarar. Isst é algo que eu, viajante experiente nas páginas desta obra, lhe garanto.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Resenha: Corações Blues e Serpentinas


Contos muito bons

Inicio esta resenha do livro de Lima Trindade sendo bastante sincero, especialmente com o próprio autor, que é meu amigo: não gostei de todos os contos, mas apreciei muitíssimo a maior parte deles. 

Particularmente, considero este fato até normal quando estamos às voltas com livros que tratam do gênero conto. Não gostar de todas as histórias de uma obra já ocorreu antes comigo e com certeza deve ter acontecido com muitas outras pessoas. E, em relação a mim, aconteceu até mesmo quando li contos policiais de Arthur Conan Doyle, inclusive alguns com seu personagem mais célebre, o destemido e perspicaz detetive Sherlock Holmes. E olha que Sir Conan Doyle figura entre meus autores favoritos de todos os tempos!

Mas voltando ao Corações blues e serpentinas, o mesmo não é nenhum livro policial ou de detetives. Ele trata, fundamentalmente, de um tema com o qual todos nós, seres humanos, estamos familiarizados, seja em maior ou em menor intensidade de espírito: o amor. Seus quinze contos investigam as mais diversas nuances e tonalidades das relações amorosas, inseridas em dias atuais.

A obra é dividida em duas partes: “Blues”, que trata mais de conflitos e dificuldades às quais as relações íntimas estão sujeitas (o termo ‘blues’ vem de tristezas) e “Chorinhos”, onde se percebe que amar também pode ser prazeroso algumas vezes. E nesse caldeirão de contos, Lima Trindade, como diz uma informação da orelha de seu livro, “reproduz o inconsciente de sua geração, que viveu o rock, a renovação na literatura, no cinema e no teatro, as lutas das minorias, a liberação sexual, a mudança de costumes, o embate ideológico e outros conflitos.” Por isso, seu livro é uma verdadeira festa para aqueles que estão antenados com o contemporâneo e com inúmeras referências ‘pop’ oriundas de canções, histórias em quadrinhos, filmes e outros meios de informação e entretenimento.

O homoerotismo, tema um tanto tabu em produções literárias também dá movimento, vida e cor à maior parte dos contos, mas também encontramos na obra o amor entre homem e mulher, caso alguém tenha alguma ressalva contra histórias que envolvam 'amor transgressor’. Entre os contos que mais gostei, destaco então “Noite num hotel da Asa Norte” (sobre as dúvidas de um jovem homossexual sobre vida e amor), “O balão amarelo” (pela poesia que exala, muito bem escrito por sinal), “Leponex” (uma espécie de Eduardo & Mônica – canção da Legião Urbana – adaptado para os dias atuais), “Três movimentos para um selvagem desamor” (sobre o amor entre duas mulheres de gerações diferentes), “A primeira vez” (paixão platônica e avassaladora de um escritor iniciante por seu ídolo), “Anjinho barroco” (relação homo que oscila entre o sagrado e o profano), “Uma vez no céu escuro e brilhante” (uma ficção científica com tons de arco-íris) e “Queen Sally II” (de longe o que mais gostei, pelo fator surpresa).

Este foi o terceiro livro que Lima lançou em sua profícua carreira e o primeiro dele que li. Que venham outros mais então, pois talento não lhe falta e com certeza belas histórias para nos contar também não. Procure conhecer, portanto (assim como eu), as suas produções.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Resenha: Fup



"Fup? Mas que diabos é Fup?"

Foi essa pergunta carregada de incredulidade e sarcasmo que fiz a mim mesmo quando soube, via amigos da internet, da existência desse livro de título tão estranho que trazia a figura de um pato na capa.

Seria um manual para criadores de aves ou alguma história infantil sobre uma fazenda de animais? Curioso e estupefato, ainda mais com os elogios dos amigos à história, resolvi adquirir o livro para tirar minhas próprias conclusões. E não é que adorei?

A história de Fup, do escritor americano Jim Dodge, se passa na primavera de 1977, relatando o cotidiano um tanto bizarro e poético de quatro personagens de personalidades distintas cujas vidas se entrelaçam de tal forma que é impossível não ficar alheio ao destino deles. Eles são Jake, um avô ranzinza que se julga imortal por conta de um elixir alcoólico que fabrica; Miúdo, seu neto órfão obcecado em construir cercas, Fup, uma pata obesa e geniosa surgida do nada e sem qualquer aptidão para voar e Cerra-dente, um destemido e perigoso porco-do-mato cuja principal atividade é destruir as cercas construídas por Miúdo.

A ligação entre Fup e Cerra-Dente e entre Miúdo e seu avô mostram o quão gradual é o aprendizado da liberdade. A forma com que Dodge explora a metáfora da cercas de Miúdo para falar do quanto é importante a liberdade na vida das pessoas realmente impressiona. E faz o leitor pensar que, assim como Miúdo, muitas pessoas passam grande parte de sua vida vidas construindo cercas em torno de si para se sentirem seguras, quando o certo seria destruir estas cercas para se libertar de amarras que nos são impostas pelas urgências e pelo marasmo do cotidiano.

Fup é uma leitura gostosa, prazerosa. Sua narrativa e seus personagens são bem construídos, como pouco se vê por aí, em um mundo apinhado de best-sellers sem graça. E acho melhor não revelar muitos detalhes da história para que você, futuro leitor, investigue a fundo esse livro inusitado e belo.

Portanto, se você quer fugir um pouco do convencional e se acha que sua vida precisa de um impulso, leia Fup. Esse livro, de caráter edificante, é um verdadeiro achado, embora ninguém dê nada pelo mesmo à primeira vista (como eu o fiz).

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Resenha: Procura-se um vampiro


Um novo amor para Sookie?


Procura-se um vampiro é o quarto livro das crônicas de Sookie Stackhouse, escrito por Charlaine Harris, e de longe o melhor de todos até o momento, embora eu ache que ainda falta um pouco mais de empolgação e evolução à trama, que ainda está morna.

Em Morto até o anoitecer, primeiro livro da série, conhecemos Sookie, seu dom para telepatia, encrencas e a sua nova rotina ao iniciar namoro com um vampiro suspeito, em potencial, num caso de assassinatos em série que andam acontecendo na pequena cidade onde ela e sua família vivem, Bon Temps, Louisiana, Estados Unidos.

Em Vampiros em Dallas, o segundo, vemos Sookie e seu namorado Bill Compton em uma das principais cidades do Texas às voltas com investigações sobre uma seita de fanáticos religiosos que querem a eliminação de todos os vampiros do mundo, mesmo estes tendo saído da obscuridade desde que cientistas japoneses, munidos de grande astúcia, inventaram o sangue sintético que lhes garante a sobrevivência sem que precisem matar pessoas para saciar a sede.

No terceiro livro, Clube dos Vampiros, Bill desaparece misteriosamente em uma missão secreta e cabe a Sookie encontrá-lo, mesmo que seja preciso a sua involuntária infiltração no meio de um dos principais pontos de encontro das criaturas sobrenaturais que infestam os Estados Unidos, o Club Dead, e ainda por cima com a ajuda de mutantes, duendes, um lobisomem que mexe com a sua libido (o destemido Alcide Herveaux) e o chefe de seu namorado (o sedutor e aparentemente perigoso vampiro Eric Northman).

Agora, neste quarta aventura, encontramos uma Sookie fragilizada pelos acontecimentos ocorridos no terceiro livro, em especial com o rompimento definitivo de seu namoro com Bill. É véspera de ano novo e nossa heroína está firme em novas resoluções para a sua vida que não envolvam assassinatos, espancamentos e sangue derramado ou sugado.

O que ela não esperava, entretanto, já na volta para casa da festa de ano novo em que participa no seu trabalho, era encontrar na estrada um Eric Northman completamente desnorteado, desmemoriado e nu em pêlo, para seu mais secreto deleite. Piedosa como sempre (e um pouco excitada), mesmo que seu objeto de pena (e desejo) seja uma imprevisível máquina de matar, Sookie leva Eric para a sua casa onde ele se torna seu hóspede por tempo indeterminado, pois sondando posteriormente os motivos que o levaram até ali, ela acaba descobrindo que a cabeça dele foi posta a prêmio por um perigoso clã de bruxos recém-chegados a Louisiana e que querem tomar conta do poderio sobrenatural no local, também conhecido como Área 5 e onde Eric é o xerife.

Indo contra as suas resoluções de ano novo, Sookie decide ajudar Eric a recobrar sua memória e também ajudar a comunidade sobrenatural da Área 5 a combater os indesejáveis invasores. Mas desta vez Sookie não poderá mais contar com a outrora certeira ajuda de Bill em suas aventuras, por conta do rompimento da relação entre eles e também por causa da mais nova viagem secreta de Bill, sob as ordens da Rainha Vampira da Louisiana, à América do Sul.

Outros acontecimentos que Sookie não poderia prever no decorrer da história são o súbito e misterioso desaparecimento de seu irmão Jason e os sentimentos novos que começa a nutrir por Eric. Mas não o Eric debochado, rude e frio que ela conhece e despreza, mas um Eric novo, mais amável, protetor, carinhoso e provavelmente mais verdadeiro em sua essência, que talvez jazia adormecida nele ao longo dos anos, o que é de se estranhar, já que vampiros não possuem almas.

Apesar das histórias mornas até o momento, é muito difícil não se apaixonar por Sookie e seus amigos. Talvez seja isso que ainda me mantenha preso a estes livros, sempre ansiando pelo lançamento de novos títulos da série, que nos Estados Unidos já totalizam dez.

Se você é fã, já sei que irá correndo atrás do seu. Se não é, esqueça um pouco seus preconceitos literários e procure conhecer as crônicas de Sookie, nem que seja por mera diversão.

E até a próxima resenha!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Resenha: A senhora das velas


Piegas!

Walcyr Carrasco tem muitos méritos em sua carreira. Caso o nome lhe soe familiar, ele é autor de grandes sucessos na área de teledramaturgia, tais como as novelas "O Cravo e a Rosa", "Alma Gêmea", "A Padroeira", "Chocolate com Pimenta" e a obra-prima "Xica da Silva", na extinta TV Manchete (onde usou o pseudônimo de Adamo Angel).

Porém o sucesso que permeia suas produções na telinha não o acompanhou nos livros, em especial esse A senhora das velas. É um livro tão cheio de clichês que você facilmente descobre o que vai acontecer na página seguinte. Foi o primeiro livro dele que li e definitivamente não gostei, mesmo estando dentro de uma linha de realismo fantástico, gênero que aprecio muito especialmente quando leio as obras de Gabriel Garcia Márquez.

Basicamente, é a história de um menininho pobre chamado Felipe que vivia feliz com os pais em um terreno arrendado em uma fazenda e que acabam morrendo por conta de uma desgraça inesperada. Expulso da casa onde sempre viveu pelos patrões de seus genitores, Felipe vai para a cidade grande em busca de uma tia rica que sabe que possui, mas que nunca conheceu pessoalmente. Trata-se de uma mulher amargurada, ressentida e muito difícil de se conquistar, quando finalmente a conhecemos e aqui, é inevitável pensarmos imediatamente na tia Polly, do romance Pollyanna, de Eleanor H. Porter.

Mas, graças à ajuda de Nossa Senhora (com direito a efeitos especiais com muita luz de velas) tudo se resolve.Como se na vida real isto realmente acontecesse, não é?

Para quem acredita em crendices e milagres, este livro é um prato cheio. Para mentes inteligentes e esclarecidas, um suplício. Portanto, você decide que partido tomar se resolver ler esta obra.

Lembrando que ganhei a mesma de presente...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Resenha: O caso de Charles Dexter Ward


Cabalístico

Eis um livro recomendadíssimo para os fãs da literatura de horror. Se você ainda não conhece as obras de  H. P. Lovecraft, já é hora de fazê-lo, iniciando então com este O Caso de Charles Dexter Ward.

Trata-se de um livro não muito longo, tanto que a única edição brasileira em circulação no momento saiu pela L&PM Pocket, ótima editora especializada em livros de bolso. Mas, embora pequeno, a obra é dotada de um conteúdo poderoso que vai mexer bastante com os seus nervos.

A história do livro gira em torno da existência de um misterioso homem chamado Joseph Curwen, que viveu em Providence no século XVIII e que era possuidor de hábitos bastante estranhos e cabalísticos. Suspeitava-se, entre as pessoas da povoação, que Curwen realizava rituais satânicos ou coisas do tipo em sua fazenda, como vampirismo e canibalismo. Por conta destes boatos e do crescente número de fenômenos sobrenaturais em torno de sua morada, acabou sendo morto por populares em circunstâncias que durante séculos foram guardadas a sete chaves e esquecidas.

Porém, cerca de duzentos anos depois, um de seus descendentes diretos, o Charles Dexter Ward do título, promissor e apaixonado estudante de história de Providence, descobre por um acaso seu parentesco com o temido Curwen.  A vida do antepassado o intriga de tal forma que ele passa a investigar, por conta própria, os acontecimentos que cercaram o indivíduo e a comunidade há séculos atrás. Porém, depois de certo tempo, a vida de Charles, que outrora era promissora e feliz, muda radicalmente de rumo quando ele começa a adotar os mesmos estranhos hábitos de seu ‘ilustre’ familiar.

Para um primeiro contato com as obras de Lovecraft, este livro pode ser um pouco cansativo, pela quase inexistência de diálogos, já que se trata de um relato minucioso da vida de dois homens que se entrelaçam de tal forma que fica difícil, às vezes, distinguir quem é quem. Um livro perfeito, que prende o leitor, especialmente aquele que possui nervos de aço e que não se incomoda com mistérios e atmosferas sombrias.

Howard Phillips Lovecraft, o autor, é nascido em Providence, Rhode Island (1890-1937), interessava-se pela ciência e suas conquistas modernas e pelo ocultismo. Tão cultuado como Edgar Allan Poe, é autor de admiráveis histórias de terror e sobrenatural que influenciaram decisivamente o desenvolvimento da science fiction. Além deste O caso de Charles Dexter War, publicou, entre outros, The Tomb, The Lurking Fear, The Cream-Quest of Unknown Kadath e The Doom that Came to Sarnath. E alguns destes títulos estão disponíveis no Brasil, no idioma pátrio. Caso tenha curiosidade por eles, procure-os nas melhores livrarias ou sebos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Resenha: O diabo veste Prada


That's all, Andrea

Adaptações cinematográficas hollywoodianas para determinados best-sellers de sucesso nem sempre são 100% fidedignas e, sinceramente, nem precisam ser. A linguagem cinematográfica, mais ágil e dinâmica que a literária, requer mudanças necessárias às tramas, sejam elas as mais sutis ou as mais drásticas. Mas que ajudem a  contribuir para um melhor desenrolar da história.

Em relação a O diabo veste Prada, isso aconteceu e confesso que achei ótimo. Tive o prazer de conhecer o livro antes de ver o filme e, terminada a sessão de cinema, pensei: quanta diferença! E confesso que ainda não cheguei, até hoje, a um consenso sobre qual é o melhor, se o livro ou o filme, mas a película está quase lá, ganhando o páreo. Teve o mérito de trazer uma maravilhosa Meryl Streep na pele da megera (bem mais humanizada) Miranda Priestly, quase que totalmente oposta à da obra original e de dar novos desdobramentos à história que a tornaram mais dinâmica sem perder o foco.

O livro foi escrito por Lauren Weisberger. Em seu currículo profissional, está o trabalho como assistente da poderosa editora da revista Vogue, Anna Wintour, que segundo as más línguas, inspirou Miranda. Assim, qualquer semelhança da obra com a realidade não é mera coincidência. Mas, voltando à obra, nela conhecemos Andrea Sachs, uma jovem recém-formada que conquista um emprego bastante cobiçado que representa o sonho de milhares de garotas que amam o mundo da moda: o de assistente de Miranda Priestly, reverenciada editora da Runway Magazine, a mais bem-sucedida revista de moda do mundo. Porém, logo ela percebe que a empreitada não será nem um pouco fácil, por conta do gênio irascível e das muitas manhas da glamorosa, mas tenebrosa Sra. Priestly, que jamais aceita um não como resposta e quer tudo a seu jeito, sem medir as conseqüências de seus atos, muitas vezes, arbitrários. Daí em diante, o inevitável começa a acontecer. Embora comece a figurar como uma profissional em franca ascendência no trabalho, pois trabalha feito uma louca para satisfazer sua chefa, a vida pessoal de Andrea começa a decair drasticamente, obrigando-a por de lado então o seu namorado (que no livro é professor de crianças problemáticas de uma escola pública), a sua melhor amiga Lily (com sérios problemas de alcoolismo e promiscuidade sexual) e sua própria família, perdendo até, nesse momento de sua vida, o nascimento de seu pequeno sobrinho.

O livro é um pouco cansativo, com detalhadas descrições sobre marcas, produtos, procedimentos e situações que remetem ao mundo da moda, chegando a ser um pouco rasteiro e tedioso em algumas passagens. Mas vale a pena ser conhecido na íntegra. Embora soe como futilidade aos ouvidos de algumas pessoas, o mundo da moda oferece um leque de possibilidades e curiosidades que com certeza encantarão até as pessoas mais leigas no assunto.

O diabo veste Prada, portanto, é uma leitura agradável, especialmente quando encarado como uma obra catártica, a respeito de crescimento profissional e de chefes implacáveis, pessoas muitas vezes sem um pingo de sensibilidade que adoram escravizar as almas alheias sem o menor escrúpulo.  E sobre o quanto são felizes aqueles que superam estes chefes e têm um final relativamente feliz. 

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Resenha: Clube dos vampiros


Sookie adquire mais experiências e... hematomas

Inicio esta resenha fazendo uma crítica um pouco ácida a esta edição brasileira do livro. Se você não leu ainda os livros anteriores, não leia o próximo parágrafo, que está em itálico. Vá direto ao próximo depois dele, pois este em questão contém um SPOILER., uma revelação importante do livro anterior a qual com certeza você não quer saber se ainda não o leu. Por isso, não quero ser mais um dos inúmeros estraga-prazeres espalhados pela internet que ficam contando, inconsequentemente e em riquezas de detalhes, as passagens importantes e até mesmo finais de diversos livros que nem todos conhecem ainda.

Não sei se está de acordo com a editora original, mas a Benvirá (selo editorial recente do Grupo Saraiva), no afã de relacionar o livro com a série, colocou uma foto com todo o elenco de True Blood na capa, o que constitui um equívoco terrível. Mas como, se a Tara que conhecemos na série sequer aparece nos livros e seu primo Lafayette, também presente nela, já até morreu no segundo? Sei que na série ele continua vivíssimo, mas convenhamos: livro é livro e série é série. E se há algo que realmente tenho estranhado muito nas edições nacionais da série em livro é esse troca-troca de editoras. Morto Até o Anoitecer, o primeiro livro, saiu pela Ediouro. Vampiros em Dallas, o segundo, saiu pela ARX. Sabe por onde o próximo sairá se essa Benvirá não se estabelecer como a Editora definitiva dos livros de Charlaine Harris em terras brasileiras.

Mas, focando agora no livro, Clube dos vampiros é o terceiro livro de Charlaine sobre as aventuras da garçonete telepata Sookie Stackhouse e dos companheiros nada convencionais que a acompanham nessas empreitadas, como os vampiros Bill (namorado), Eric, Pam, Bubba e uma uma infinidade de outras criaturas estranhas, como mutantes e lobisomens, que cruzam seus caminhos na pequena e aparentemente pacata cidade de Bon Temps, na Louisina (EUA).

A história se inicia com fortes indícios de que a relação de Bill e Sookie não é mais a mesma, desde que se conheceram. Distante, frio, desinteressado por climas românticos, Bill anda às voltas com missões secretas que lhe foram designadas pela rainha vampira da Louisiana, tão secretas que nem mesmo Eric, seu superior imediato, sabe de suas existências. Ou talvez desconfie.

Um rompimento entre os dois então é inevitável e mesmo arrasada, Sookie tenta retomar sua vida do zero, como se isso fosse possível. Após certo tempo, recebe a visita do próprio Eric, em pessoa e de Pam, sua assistente, que lhe noticiam o desaparecimento de Bill, e interessadíssimos, claro, em  saber também o que poderia ter ocasionado esse súbito e inexplicado desaparecimento.

Ainda fiel a Bill, Sookie diz aos vampiros desconhecer os motivos que levaram ao seu desaparecimento, mas se compromete em ajudar a encontrá-lo, ainda mais quando é informada de que Bill pode estar prisioneiro nos domínios do rei vampiro do Mississipi. 

Como Eric e nem Pam, sendo vampiros de outro território não podem circular no outro Estado, resolvem designar então um novo companheiro de aventuras para a telepata, que acaba um tanto abalada em suas estruturas quando conhece o sujeito em questão.

Trata-se de Alcide Herveaux: sujeito alto, moreno, musculoso e sensual que possui as qualidades que uma donzela casadoira e aspirante a uma vida normal mais deseja em um marido, incluindo-se aí adjetivos como rico, trabalhador e supostamente honrado e honesto. Porém, no caso particular de Sookie nada em sua vida é perfeito. Mesmo livre e desimpedido no momento, Alcide, revela ser, na verdade, um lobisomem. E que deve favores a Eric.

Apresentações feitas e empatia imediata entre os novos parceiros, Alcide e Sookie dirigem-se imediatamente a Jackson, Mississipi onde o pai do jovem lobisomem possui negócios e onde Alcide também é bem conhecido no meio 'sobrenatural' do lugar. E se pretendem realmente descobrir o paradeiro de Bill, devem freqüentar o lugar mais barra pesada da cidade, o Club Dead. Mas esta missão não será nem um pouco fácil, ainda mais quando vampiros desconfiados, mutantes ciumentos e outros lobisomens, de índole vingativa, cruzam o caminho dos dois.

Mas o pior ainda está por vir quando Sookie descobrir que o que motivou Bill a deixá-la foi uma rival amorosa com cerca de dois séculos de idade...

Particularmente, acho que a série tem mantido o seu nível até aqui. Os personagens são sensuais, cativantes, mas os enredos deixam um pouco a desejar. Eu imaginava muito mais suspense e obstáculos a superar neste terceiro livro, o que não foi o caso. Tudo se resolveu tão facilmente.

Mesmo assim, acredito que os próximos volumes trarão novo frescor à série e talvez uma maior maturidade literária da autora, já que criatividade não lhe falta. Este, em particular, foi uma espécie de divisor de águas, porque agora Sookie está praticamente livre e desimpedida nas questões do amor e possui três magníficos pretendentes a seus pés, embora um deles tenha perdido completamente a sua confiança. Vamos ver então o que nos reserva a série num futuro próximo.

Até o próximo então!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Resenha: A sopa de Kafka


Finas iguarias para leitores de paladares exigentes 

A sopa de Kafka é um livro inusitado e com uma proposta bem original: ser uma espécie de livro incomum de culinária, que contém receitas que foram mescladas a contos que foram batizadas com os nomes de grandes escritores da humanidade.

Mas não é apenas só isso. Cada conto escrito pelo autor remete ao estilo literário de cada um dos homenageados na obra. Tratam, basicamente, do preparo e da degustação de cada uma das iguarias selecionadas para compor o livro. E eu que adoro literatura e gastronomia adorei simplesmente enxerguei em A Sopa de Kafka a união do útil ao agradável.

O autor escolheu cuidadosamente seus ingredientes literários e marinou tudo em ironia e criatividade, adicionando generosas colheradas de humor ao apresentar elaboradas receitas como o 'Cordeiro ao Molho de Endro', onde encontramos o estilo noir de Raymond Chandler. Em 'Ovos com Estragão', o estilo mulherzinha de Jane Austen é inconfundível e em 'Sopa Rápida de Missô' (conto que remete ao título do livro), sentimos com clareza a influência de Franz Kafka.

Outros contos que merecem destaque são 'Delicioso bolo de chocolate', completamente impregnado pela porra-louquice de Irvine Welsh., 'Tiramisu', em homenagem a Marcel Proust, onde o puro saudosismo, característico do autor, dá as caras e Coq au vin', que reverencia Gabriel Garcia Márquez. Até o realismo fantástico que é a marca de suas obras está lá, na figura de um homem que vive em um vilarejo distante e desconhecido da América Latina e que nunca dorme, só durante as missas.

'Risoto de Cogumelo' homenageia John Steinbeck e 'Galeto Recheado' é puro Marquês de Sade. Também super recomendáveis. O estilo cerebral de Virginia Woolf foi registrado com maestria pelo autor em 'Clafoutis Grandmère', que é uma espécie de doce com cerejas, caso algum leigo se pergunte do que se trata. E em 'Fenkata', temos até o estilo épico do grego Homero.

Os outros contos restantes homenageiam Graham Greene, Jorge Luis Borges, Harold Pinter e Geoffrey Chaucer. Embora nunca tenha lido nada de algum deles para avaliar se os contos lhe foram fidedignos, gostei muito do que li. Aliás, gostei muito do livro inteiro e com certeza ele passará a figurar entre os meus favoritos.

Para dar o toque perfeito a esta rara iguaria, Mark Crick criou também divertidas ilustrações, parodiando assim nomes como Andy Warhol, William Hogarth, Jean Cocteau, Vincent Van Gogh e Henry Moore. Elaborados para deliciar os amantes dos livros e da culinária, os pastiches literários são um brinde aos gourmets literários internacionais. Uma leitura imperdível e uma sugestão divertida de presente para este final de ano. Adquira o seu sem receios.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Resenha: Maurice


Para mentes e espíritos sensíveis

Maurice é um romance bem peculiar na trajetória do escritor E. M. Forster. Apesar de escrito entre os anos de 1912 e 1913 de acordo com seu prefácio, foi publicado somente em 1971 conforme o desejo de seu autor, provavelmente temendo ainda em vida um pré-julgamento equivocado por parte de seus leitores. Mas por que haveria de existir preconceito da parte das pessoas em relação a Maurice?

O livro narra a história de um jovem britânico que é estudante da Universidade de Cambridge, no princípio do século XX, e o que poderia causar comoção entre o público leitor inglês seria o fato dele ser homossexual e apaixonado por Clive, seu melhor amigo na universidade.

Maurice é platonicamente correspondido por Clive e não existe, durante o romance, qualquer resquício de envolvimento físico entre os dois. É amor romântico, na mais pura essência, o que de certa forma frustra Maurice, culminando assim no término da relação, já que Clive tem medo de assumir os seus desejos de forma plena e entregar-se à volúpia dos amantes.

Romance aparentemente terminado, Maurice volta-se à administração das posses de seu pai, deixando seus estudos e tentando assim esquecer Clive e também anular seu desejo (que considera a princípio anormal) para levar uma vida dita “normal” para os padrões da época. Entretanto, não o consegue. Mesmo com Clive ficando noivo de uma mulher, entre um véu de  aparências, ele continua a interagir com ele em esporádicas visitas à sua propriedade e amá-lo secretamente.

O tempo só ajuda Maurice a adotar novas convicções a respeito de sua sexualidade. Passa a acreditar, em função de suas preferências afetivas e sexuais, que essa forma de amor que o acomete e que afeta também outros homens, não tem o efeito de torná-los malditos e nem superiores aos demais seres humanos.

Confiante de que pode fazer Clive mudar ainda de idéia, sofre então um baque repentino em seus planos: a prisão de um amigo comum deles, envolvendo atos de sodomia em locais públicos, o que apavora ainda mais Clive e o leva a casar-se e dar vazão às ambições de uma  carreira política que vem alimentando há certo tempo.

Com o fim definitivo do romance, Maurice torna-se a própria personificação do desespero. Mas o surgimento de um novo homem em sua vida, de uma classe social mais baixa que a sua, poderá fazer com que Maurice finalmente seja feliz e passe a ver sua vida sob novas óticas, onde ser livre para amar e para fazer o que bem entender se torna a sua meta.

Ao contrário das vidas trágicas de muitos homossexuais daquela época e ainda de épocas modernas, Maurice é um ótimo romance que aponta para um final feliz. E para uma felicidade perene, pois fica um tanto implícito que Maurice e seu companheiro talvez vivam, daí para frente, juntos, mais unidos do que nunca nas dores e nos prazeres e em uma relação monogâmica.


Cabe então, ao leitor, tirar as suas próprias conclusões. Foram felizes para sempre ou não?

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Resenha: A gorda e a volta por cima


Este é o primeiro livro de Carlos Heitor Cony que leio, obviamente voltado para um público mais juvenil do que adulto. 

Cony escreve muito bem. É um mestre das palavras e dono de uma alma de poeta, intimamente ligada a assuntos relacionados ao sofrimento e à superação de problemas, pois tem experiência nesses assuntos. Para quem não sabe, o autor foi uma das inúmeras pessoas que sofreram com perseguições e torturas nos caóticos anos de ditadura militar no Brasil.

Mas deixando esse episódio vergonhoso de nossa história de lado, voltemos ao Cony escritor. Como bom conhecedor da causa, o sofrimento dá o tom também a esta sua obra, que mesmo sendo uma de suas menores, possui seus méritos. Talvez o maior deles seja conscientizar a juventude brasileira a respeito da ditadura da beleza e da busca desenfreada por status elevado na sociedade, que influenciam negativamente as pessoas hoje em dia, levando-as cada vez mais a descartar tudo aquilo que é diferente ou que não se encaixa em seus padrões pessoais cada vez mais exigentes e rígidos.

A gorda e a volta por cima é, na verdade, uma espécie de reinvenção, pelo autor, do conto infantil da Gata Borralheira, mas no contexto de nossos dias e retratado cuidadosamente em terras brasileiras. Trata-se da fictícia história de Gilmara, uma moça inteligente e estudiosa nascida e criada no subúrbio do Rio de Janeiro e que sofre com problemas que são muito comuns entre os jovens de hoje: obesidade, ansiedade, desatenção pela parte dos pais e baixa auto-estima.

Filha indesejada de um casal que cobiçava um terceiro filho do sexo masculino, após os nascimentos de duas filhas mais velhas, Gilmara vai levando a vida como pode, mas sempre em meio a um sofrimento silencioso, que a incapacita em revidar os insultos que recebe, suportando, então, resignada o desprezo dos pais e principalmente o de sua mãe, que a compara sempre de forma desfavorável em relação às suas irmãs, mais esbeltas e bonitas. 

Porém, como nada da vida é definitivo, sua vida começa a mudar quando sai do subúrbio e passa a morar em Copacabana, graças à ascensão profissional de seu indiferente e distante pai, no ramo imobiliário. Talvez inspirada pelas novas perspectivas de sua vida, resolve mudar de vida e de hábitos. Mas muitos desafios ainda a esperam, especialmente um inesperado interesse amoroso que a deixa bem intrigada. Seria mais uma brincadeira ou algo real, confiável?

Mais Cinderela do que isso é impossível, não é? Que tal ler então e tirar suas próprias conclusões? Ou então, que tal recomendar a alguém que esteja passando pelos mesmos problemas de Gilmara?

Boa leitura e até a próxima!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Resenha: Fogo nas entranhas


 ¡Caliente!


Fogo nas entranhas é um dos dois livros deliciosos, bem-humorados e escrachados de Pedro Almodóvar que saíram aqui no Brasil sem o menor resquício de alarde entre o público leitor. O outro é Patty Diphusa, que leio atualmente e que em breve resenharei por aqui também.

Confesso que fiquei empolgado com esses livros, quando, de alguns anos para cá, tomei conhecimento de suas existências. Almodóvar de longe é o meu cineasta estrangeiro favorito e quem não conhece as suas obras, faça o favor de conhecer. Embora ele não seja santo, é um sacrilégio total desprezar o que ele tem feito ao longo dos anos em matéria de filmes. Valem a pena conferir.

Este livro, em particular já começa bem, com uma introdução escrita pela atriz Regina Casé chamada “Calor na bacurinha” que chega até ser interessante. Um aperitivo para o que está por vir nas próximas páginas.

O livro, com nuances eróticas, narra a insólita história de um grupo de mulheres que possuem em comum a ligação com Chu Ming Ho, um chinês que chegou a terras espanholas na década de 50 e se estabeleceu na capital, Madri, como um proeminente empresário no ramo de absorventes íntimos femininos.

Porém, a sorte que acompanha Ming nos negócios não se estende à parte amorosa. Das cinco amantes que mantém em sua estadia no país, todas o abandonam por motivos inexplicados, provavelmente entediadas com ele. Sentindo-se desprezado e movido por uma misoginia cada vez mais crescente, resolve bolar então uma vingança bem arquitetada contra todas as mulheres da cidade, que como o título do livro sugere, ficarão com um fogo avassalador em suas entranhas.

A narrativa, em pequenos capítulos, mistura sexo, feminismo, espionagem e assassinatos com um toque de nonsense. Com maestria e genialidade, Almodóvar reproduz um pouco do cotidiano de Madri entre as décadas de 60 e 80. Ao ler este livro, é impossível deixar de rir em algumas de suas passagens, tamanha o surrealismo de alguns de seus acontecimentos, com destaque a Isidra, empregada doméstica septuagenária que é tia-avó de uma das cinco mulheres de Ming. Uma figura!

Fogo nas entranhas é isto: uma leitura descontraída e de boa qualidade que fica difícil de largar depois que se começa a ler. Seu único pecado talvez seja a falta de mais diálogos, que de certa forma tornam sua leitura breve e mais ágil.

Espero, um dia, que Almodóvar reveja o potencial desta sua pequena obra de arte literária e a adapte com êxitopara o cinema, corrigindo então esta falha e nos premiando com diálogos mais ricos e interpretações majestosas que só os seus filmes possuem.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Resenha: Livros de Sangue 1



Sangue, horror, escatologia e sexo


Já leu ou ouviu falar a respeito de Clive Barker? Se sua resposta for negativa, você precisa conhecê-lo imediatamente.


Nos anos 80, este escritor e cineasta inglês ganhou notoriedade por criar um estilo próprio de terror. Além da farta quantidade de sangue e cadáveres, ele empregava em suas histórias ingredientes como o sadomasoquismo e a escatologia. Exemplo disso é seu trabalho mais bem-sucedido como diretor de cinema, Hellraiser (1987), que acrescentou à galeria do horror classe B uma criatura que tinha o rosto crivado de pregos – o demoníaco Pinhead.

Hoje, no Pérolas da Compulsão conheceremos o primeiro volume de uma série de livros de contos bem-sucedida de Clive, os chamados Livros de Sangue. No total de seis volumes, estas obras possuem contos que incomodam, que são desconfortáveis e que enjoam o estômago do leitor antes mesmo de os amedrontarem. Fora Poe, Lovecraft e King (que muito elogia Barker), poucos autores do gênero "terror" conseguiram ter esse efeito duradouro ao longo dos últimos anos, pois as histórias destes livros permanecem em nossa mente durante muito tempo após terem sido lidos, pois Barker nos surpreende com novas nuances de maldades e terrores inéditos e inimagináveis, pois parece entender bem o medo e o mistério. O sexo também é bastante freqüente em suas obras, podendo deixar alguns leitores mais puritanos desconfortáveis.

Este primeiro volume de Livros de Sangue conta com seis contos. O primeiro dele, “O Livro de Sangue”, que se passa em uma casa com fama de assombrada, é curto e basicamente explica o título das obras. Funciona como uma espécie de introdução ao que está por vir.

"O Trem de Carne da Meia-Noite", o segundo conto, é o maior e um dos melhores da obra. Trata-se da história de um homenzinho comum, com uma rotina monótona e sem graça, que vê sua vida virar de cabeça para baixo no dia em que encontra em seu caminho um assassino em série que ataca suas vítimas no metrô e que possui um propósito macabro para justificar estes crimes. 

“O Yattering e Jack”, o terceiro conto, é particularmente o meu favorito do livro. Com doses generosas de humor negro, narra as desventuras de um sujeito às voltas com um pequeno demônio entocado dentro de sua própria casa, que insiste em perturbar a sua vida a fim de roubar-lhe a alma, porém, sem sucesso. Em meio a inúmeras sabotagens e destruições do imóvel, resistências de ambos os lados, fingimentos e teimosias, uma verdadeira batalha sem precedentes entre bem e o mal é vista neste conto. Que lado vencerá?

O quarto conto, “Blues do Sangue de Porco” se passa em um reformatório de rapazes infratores que recebe um novo professor de marcenaria, com tendências suspeitas. O que o professor não contava era que, por trás da fachada de instituição séria, forças terríveis estavam à sua espreita, especificamente na fazendinha de animais anexa ao local.

O quinto conto, “Sexo, morte e luz das estrelas”, é um dos mais profundos do livro. Recheado de divagações filosóficas e demais questionamentos, ele conduz o leitor a um clímax que o faz pensar a respeito de seu próprio destino, talvez em um futuro próximo e sobre este eu não entrarei em mais detalhes, para não estragar a surpresa.

Um casal de gays em crise de relacionamento e viajando pela Europa Oriental passa por sérios apuros em “Nas colinas, as cidades”, o conto que fecha o livro. De longe o mais surreal e fictício de todos. E na minha opinião um pouquinho complicado de se entender.

Livros de Sangue 1 não chega a ser excelente, mas 80% do seu teor é muito bom. A maior prova disto é que este primeiro volume é praticamente raro nas livrarias hoje em dia, mas podem ser encontrados ainda com certa facilidade em sebos. E se você ficou curioso, corra logo e adquira o seu, pois vale a pena conhecer as coisas que Barker escreve.

Até a próxima! 
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