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terça-feira, 24 de maio de 2011

Resenha: A viagem de Théo


Viajar é conhecer

Em tempos de guerras e desentendimentos pelo mundo afora, muitas vezes motivadas pela intolerância entre as pessoas, falar ou escrever sobre religião é algo complicado. Mas, é inegável o fato de que o tema, apesar de difícil para alguns, é fascinante para outros. 

Por que então muitas pessoas acreditam na existência de seres supremos capazes de controlar seus destinos? Por que algumas pessoas também insistem em não acreditar nestas deidades? Foi motivada por essas perguntas que a escritora francesa Catherine Clément escreveu o livro A Viagem de Théo, também conhecido como O Romance das Religiões.

Com um enorme conhecimento da causa, devido às incansáveis pesquisas realizadas para que esta sua obra fosse possível, Catherine deu vida a Théo, um pré-adolescente que nasceu e que vive em Paris, França.

Ao contrário de outros meninos de sua idade, ávidos por aventuras ao ar livre e desafios radicais, Théo é melancólico e recluso, vivendo preso aos ínumeros livros que mantém em seu quarto, para a perplexidade de seus pais e algumas pessoas próximas, que gostariam de vê-lo mais solto e sociável.

Mas o que aparentemente parecia irremediável começa a se transformar quando Théo é diagnosticado com câncer de natureza maligna e terminal. E em seus momentos de dor e solidão auto-infligida, ele começa a se questionar qual seria o sentido da vida, ainda mais para ele, que nunca professou qualquer tipo de religião por ser filho de pais ateus.

É nessa deixa que surge na história a riquíssima irmã de seu pai, a cosmopolita e espertíssima Tia Marthe, que lhe faz a inusitada proposta de viajar mundo afora e buscar respostas para as suas indagações. Juntos visitarão os berços das principais religiões do mundo, como o Vaticano, em Roma (catolicismo), Varanasi, na Índia (hinduísmo), Jerusalém, em Israel (judaísmo) e muitos outros lugares. Até onde eles conseguirão ir juntos e o que Théo e sua tia aprenderão com essa jornada?

Cabe a você, leitor, descobrir, ainda mais se gosta do tema, se é espiritualizado ou se simplesmente ama obter conhecimentos sobre outras culturas ou assuntos relacionados a viagens pelo mundo afora. Na época em que li o livro (final dos anos 1990), quando era mais jovem, gostei muito da história, apesar de achar o estilo da autora um pouco didático e maçante em alguns momentos da trama. Porém, apesar da lentidão, a história de Théo prendeu-me do começo ao fim.

Portanto, se for do seu interesse, não perca mais tempo: vamos viajar?

Considerando que cada livro que lemos é uma verdadeira viagem, tenho certeza que esta aqui será bem fácil e prazerosa de se encarar. Isst é algo que eu, viajante experiente nas páginas desta obra, lhe garanto.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Resenha: O amor não escolhe sexo


Um doloroso embate entre aceitação e discriminação

"Existe o lado escuro da Lua: preconceitos e discriminações. Mas existe o lado iluminado pelo Sol - um jeito feliz de viver, com solidariedade e respeito, apesar das diferenças."

É com essa premissa que Giselda Laporta Nicolelis (uma já veterana e consagrada autora de livros para jovens) dá o ponto de partida àquele que é  considerado, talvez, o primeiro livro infanto-juvenil pulicado em terras brasileiras (1997) a abordar, abertamente, a delicada e até então controversa questão da homossexualidade entre o meio juvenil.

O amor não escolhe sexo relata a história de um jovem bonito, rico, inteligente, encantador, bom aluno e muito popular na escola, Marco Aurélio, que se vê apaixonado pelo seu melhor amigo, Cristiano. Trata-se de uma obra sensível, que nos leva a refletir sobre o preconceito, mesmo que a autora demonstre, em alguns momentos da narrativa, uma certa insegurança em abordar o tema, o que numa época de incompreensão como aquela em que foi lançado é totalmente justificável, pois lá no fundo sabemos que as editoras querem que seus livros façam sucesso e vendam bem, muitas vezes desconsiderando entre seus livros temas espinhosos que venham lhe trazer possíveis prejuízos.

Marco Aurélio e Gislaine; Cristiano e Tamires. Aparentemente, dois casais de adolescentes apaixonados (especialmente o primeiro). Mas, até que ponto o amor resiste a pressões? Quando a  real orientação sexual se revela, como a pessoa reage para não sucumbir ao estigma?

Abordando o lado mais sentimental e romântico da questão e sem maiores resquícios de desejo carnal em suas páginas, a obra também convida seus leitores a uma reflexão mais profunda: é esse o mundo que queremos para nós mesmos, os outros e nossos descendentes? Um mundo que nos proíba amar a quem nosso coração desejar? Um mundo de barbárie, incompreensão e preconceito que no fundo é a herança indesejada de costumes antigos, geralmente oriundos de questões religiosas e nenhum pouco filosóficas, onde as pessoas têm o poder de exercer seu livre pensamento?

Sugiro com entusiasmo este clássico de Giselda Laporta Nicolelis a pais, a jovens que estejam em dúvida com suas sexualidades e a todas as pessoas em geral, especialmente àquelas que ainda estejam às voltas com velhos julgamentos relacionados à orientação sexual dos indivíduos, para que possam chegar a um entendimento a respeito do que foram condicionados a pensar ao longo de toda uma vida, no que diz respeito às relações amorosas entre as pessoas. 

E após a leitura, talvez aplicar novas atitudes sobre o que foi lido, preferencialmente no que tange ao próprio bem-estar (pois muitas vezes o preconceito se origina em algum conteúdo interior mal-resolvido) e ao bem estar das pessoas, já que afinal  de contas em um mundo onde um homem é condecorado por matar um semelhante e condenado por amar outro do mesmo sexo, todas as pessoas merecem ser felizes, não importa qual seja a forma com que elas busquem a felicidade.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Resenha: A marca de uma lágrima


O amor pode estar bem ao seu lado (preste atenção)

Adolescente que se acha feia, gorda, dona de um intelecto brilhante que se apaixona pelo menino mais bonito da escola que está na verdade interessado em sua melhor amiga, lindíssima e sem conteúdo. Parece até enredo de novela mexicana, não é?

Na verdade não. Trata-se de uma adaptação do francês Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand. A diferença com o original é que nele temos um exímio espadachim e poeta que é apaixonado por sua prima e vendo que ela  corresponde a seu melhor amigo, faz de tudo para ajudá-lo a conquistá-la. Não tem coragem de fazê-lo por causa de seu avantajado nariz.

Nunca li Cyrano, mas talvez um dia eu o faça. Só sei que este livro de Pedro Bandeira foi um dos que mais marcaram a minha adolescência, especificamente aos 14 anos de idade, a mesma de Isabel, a protagonista.

Isabel, como disse anteriormente, é genial, do tipo a melhor aluna da classe, especialmente em língua portuguesa, sua disciplina favorita. Escritora praticamente nata, seu passatempo preferido é dar asas à sua imaginação e escrever as mais belas poesias típicas de sua idade, que refletem seus anseios, medos, aflições e desejos, já que é filha de pais separados e seu convívio com a mãe não é dos melhores, pois esta vive com enxaqueca desde que o marido a largou por outra mulher.

No livro, estamos em mais um começo de ano letivo que prometia ser normal para Isabel, tirando o divórcio dos pais. O que ela não esperava (e acho que ninguém espera) era a chegada do primeiro amor, na pessoa de um primo distante que não via desde a infância, chamado Cristiano.  Filho único da tia Adelaide (irmã de sua mãe que vive de mudanças), Cristiano é a personificação da beleza perfeita, aos olhos de Isabel, isenta de quaisquer defeitos. 

A empatia entre os dois, a nível de amizade, é imediata. Porém, para a frustração de Isabel, Cristiano demonstra ter interesses românticos por sua melhor amiga, a bonitona porém simplória Rosana. Incapaz de manter um romance com o primo, por conta da baixa auto-estima e também por lealdade à melhor amiga, resolve ajudar esta a conquistar seu primo, escrevendo cartas e poesias de amor que Rosana assina como se fossem de sua autoria. E o que Isabel jamais imaginaria era que o seu trabalho se tornaria um diferencial na paixão entre os dois jovens.

Triste, Isabel pensa em morrer. Pais separados, amor não correspondido, aparência horrenda (que seu pior inimigo, o Espelho do Banheiro não cansa de apontar em detalhes sádicos), nada mais em sua vida tem sentido. E o que não andava bem acaba piorando quando, involuntariamente, acaba tornando-se testemunha de um crime em sua própria escola. Envenenada com cianureto (como descobriremos depois), a diretora da escola acaba sendo encontrada morta por Isabel e seu colega Fernando em seu gabinete.

Histórias mal-explicadas com relação ao assassinato, evidências, uma maior proximidade com Fernando e a adrenalina fazem com que Isabel esqueça por alguns momentos a vontade de morrer. A partir desse momento, tudo o que tem de fazer é evitar de ser morta, pois o assassino está em seu encalço.

Romance aliado ao suspense tornam A Marca de Uma Lágrima um livro bastante inesquecível. Afinal, quem um dia não foi um adolescente que se sentiu deslocado no mundo, que amou sem ser correspondido ou que até mesmo presenciou um assassinato? Hehehe! Brincadeiras à parte, é realmente difícil alguém ter presenciado uma morte tão trágica, mas as demais dores do adolescer e crescer já foram nossas um dia.

Recomendo este livro a todos. Aos saudosistas da juventude e principalmente aos jovens de agora. Enquanto muitos de vocês perdem seu precioso tempo focando em um amor impossível, de sonhos e devaneios, podem descobrir, com Isabel e com este livro, que ele pode estar bem ao seu lado, o tempo todo, bastando para isso prestar um pouco mais de atenção à própria vida. E que muitas de nossas inseguranças, especialmente aquelas relacionadas com uma baixa auto-estima, muitas vezes, são apenas coisas de nossa cabeça, valores deturpados que erroneamente enraizamos em nossos corações.

Eu, sempre que tenho vontade, releio esse livro e me sinto bem. Façam como eu.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Resenha: A gorda e a volta por cima


Este é o primeiro livro de Carlos Heitor Cony que leio, obviamente voltado para um público mais juvenil do que adulto. 

Cony escreve muito bem. É um mestre das palavras e dono de uma alma de poeta, intimamente ligada a assuntos relacionados ao sofrimento e à superação de problemas, pois tem experiência nesses assuntos. Para quem não sabe, o autor foi uma das inúmeras pessoas que sofreram com perseguições e torturas nos caóticos anos de ditadura militar no Brasil.

Mas deixando esse episódio vergonhoso de nossa história de lado, voltemos ao Cony escritor. Como bom conhecedor da causa, o sofrimento dá o tom também a esta sua obra, que mesmo sendo uma de suas menores, possui seus méritos. Talvez o maior deles seja conscientizar a juventude brasileira a respeito da ditadura da beleza e da busca desenfreada por status elevado na sociedade, que influenciam negativamente as pessoas hoje em dia, levando-as cada vez mais a descartar tudo aquilo que é diferente ou que não se encaixa em seus padrões pessoais cada vez mais exigentes e rígidos.

A gorda e a volta por cima é, na verdade, uma espécie de reinvenção, pelo autor, do conto infantil da Gata Borralheira, mas no contexto de nossos dias e retratado cuidadosamente em terras brasileiras. Trata-se da fictícia história de Gilmara, uma moça inteligente e estudiosa nascida e criada no subúrbio do Rio de Janeiro e que sofre com problemas que são muito comuns entre os jovens de hoje: obesidade, ansiedade, desatenção pela parte dos pais e baixa auto-estima.

Filha indesejada de um casal que cobiçava um terceiro filho do sexo masculino, após os nascimentos de duas filhas mais velhas, Gilmara vai levando a vida como pode, mas sempre em meio a um sofrimento silencioso, que a incapacita em revidar os insultos que recebe, suportando, então, resignada o desprezo dos pais e principalmente o de sua mãe, que a compara sempre de forma desfavorável em relação às suas irmãs, mais esbeltas e bonitas. 

Porém, como nada da vida é definitivo, sua vida começa a mudar quando sai do subúrbio e passa a morar em Copacabana, graças à ascensão profissional de seu indiferente e distante pai, no ramo imobiliário. Talvez inspirada pelas novas perspectivas de sua vida, resolve mudar de vida e de hábitos. Mas muitos desafios ainda a esperam, especialmente um inesperado interesse amoroso que a deixa bem intrigada. Seria mais uma brincadeira ou algo real, confiável?

Mais Cinderela do que isso é impossível, não é? Que tal ler então e tirar suas próprias conclusões? Ou então, que tal recomendar a alguém que esteja passando pelos mesmos problemas de Gilmara?

Boa leitura e até a próxima!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Resenha: O menino do dedo verde



Antes de começar esta resenha, gostaria de expor uma frustração minha: Como eu gostaria de ter lido esse livro na infância! Acho que teria sido mais mágico e mais memorável.

Infelizmente, o fiz depois de adulto, pois jamais, em anos e anos de vida escolar, encontrei qualquer referência a esta obra de Maurice Druon em outros livros, especialmente os didáticos, que sempre trazem trechos de livros consagrados.

A primeira vez que ouvi falar de O Menino do dedo verde foi quando eu cursava a 8ª série do 1º Grau (atual 9º Ano do Ensino Fundamental). Ele foi recomendado com grande empolgação pelo nosso professor de Língua Portuguesa, o carrasco James, em um de seus poucos momentos de ternura. Sempre cínico e muito exigente com seus alunos, James tornou-se outra pessoa ao mencionar o livro e não deixei de notar essa mudança.

É claro que o procurei pelas livrarias da minha cidade, exaustivamente. Mas não o encontrei, para a minha frustração. Dificilmente encontrávamos bons livros em Manaus. A venda de títulos, até o começo dos anos 90, era focada em livros didáticos e leituras extraclasses obrigatórias adotadas pelas escolas e, aparentemente, O menino do dedo verde parecia não gozar de muito prestígio entre os docentes da época. Uma pena.

Não o encontrando também nas bibliotecas da vida, foi só depois de adulto, lidando com as facilidades do comércio via internet é que consegui ter o livro em mãos. E neste ano, para ser mais específico.

Em seu livro, Maurice Druon narra a história de um garoto chamado Tistu, nascido em berço esplêndido e que vive com seus pais em uma grande mansão, numa cidade fictícia chamada Mirapólvora, famosa por sua indústria bélica, comandada pelo pai do garoto, que sonha ver o filho único seguindo a mesma carreira. Porém, ao entrar na escola da cidade, Tistu acaba revelando-se um fiasco de estudante, por não conseguir adaptar-se às metodologias de ensino aplicadas no local, que lhe parecem constantemente monótonas e inúteis, levando-o ao sono involuntário durante as aulas. E com isso, acaba sendo expulso do local.

Alarmados, e cientes de que a formação intelectual de seu herdeiro não deve ser negligenciada, os pais de Tistu resolvem promover sua instrução de outra maneira, fazendo com que ele aprenda com os próprios olhos, levando-o assim aos locais que eles consideram apropriados ao conhecimento do menino, como o jardim da casa, os campos, os arredores da cidade, a fábrica de canhões, o hospital, considerando assim a vida como a melhor escola que existe.

Mesmo sendo um proeminente intelectual e acadêmico, autor de alguns romances históricos, Druon criou um livro infanto-juvenil perfeito, impregnado de ternura, sensibilidade e poesia que nos fala a respeito da busca de nossas verdadeiras vocações e convicções na figura de um garoto que, no decorrer da história, descobre ter um poder incomum: o ‘dedo verde’, onde tudo o que toca, floresce e frutifica, como se fosse mágica.

Recomendo com entusiasmo a leitura deste livro aos mais jovens. Não deixe que os mesmos vivenciem a mesma frustração que tive até poder finalmente tê-lo em mãos. O menino do dedo verde também é um livro para se ter sempre ao lado, para que, mesmo adultos, possamos relê-lo ao longo dos anos sempre que tivermos uma chance ou quando nos sentirmos desestimulados diante de nossas vidas, pois acredito que a missão desse livro é trazer de volta ao nosso convívio o encantamento pelas coisas novas e a paixão por um mundo mais belo e isento de conflitos. Maurice Druon criou uma obra cujo significado o leitor mais sensível será capaz de introjetar em si, descobrindo-se assim também um possuidor de um polegar verde capaz de revolucionar sua própria existência e o mundo ao seu redor.

Um livro lindo, que através da inocência dos olhos de uma criança, revela a beleza de uma vida feita de bondade, apontando, assim, soluções simples para grandes problemas que os adultos são incapazes de resolver.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Resenha: O apanhador no campo de centeio


O primeiro livro real feito para jovens

É bem possível que você nunca tenha lido O Apanhador, mas deve ter ouvido falar muito nele por aí. Se você tem um mínimo de conectividade com o mundo que o cerca, muito provavelmente já viu, leu ou ouviu alguma alusão ao livro no cinema, em jornal, revistas, em outros livros e até mesmo em escabrosas teorias da conspiração, como o fato do livro ser o favorito de Mark Chapman, o assassino do ex-Beatle John Lennon e de John Hincley Jr., que tentou assassinar o presidente norte-americano Ronald Reagan nos anos 80 . O fato é que este romance de 1951 virou lenda ao longo dos anos, e fez de seu autor, Jerome David Salinger (ou simplesmente J. D.), um dos maiores mistérios da história recente da literatura. A pequena revolução que O Apanhador causou no comportamento da juventude americana (e por tabela, no comportamento da juventude do mundo todo), reverbera até os dias atuais.


O Apanhador narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, um jovem de 17 anos vindo de uma família abastada de Nova York. Holden, estudante de um pomposo internato para rapazes, volta para casa mais cedo no inverno depois de ter levado bomba coletiva em quase todas as matérias que estuda. Na volta para casa, antevendo a bronca que levará de seus pais, vai refletindo sobre tudo o que viveu, repassando ao leitor sua peculiar visão de mundo e tentando no processo enxergar alguma esperança ou talvez alguma grandiosa idéia que defina o seu futuro. E antes de se defrontar com os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, sua irmã Phoebe) e tenta explicar-lhes a confusão que passa por sua cabeça.


E é apenas isto. Não há nada de trágico ou dramático na história. Trata-se apenas da jornada de um adolescente de volta ao lar e a grande sacada de O Apanhador é justamente esta: ser uma história de e para adolescentes, e não meramente um livro "recomendado para leitores em idade escolar". Foi a primeira vez na literatura americana (ou mesmo na mundial) que o universo próprio dos jovens foi estudado a fundo e exposto de maneira absolutamente natural, sem nenhuma pretensão ou didatismo. As idéias, conceitos, bobeiras, burrices, enfim, toda a loucura de ser jovem, nunca haviam sido traduzidas de uma maneira tão profundamente sintonizada com a realidade, segundo alguns fãs e críticos entusiastas do livro.


O que faz com que um livro narrando acontecimentos quase banais, ocorridos com um adolescente que não tem nada de extraordinário, transforme-se na mais acurada e sensível crônica da juventude deste século? Por se tratar justamente de um marco na longa estrada que os jovens trilharam (e ainda trilham) para provar que têm direito a uma voz e uma visão de mundo próprias. E antes dele, simplesmente não existia esta coisa que há hoje de cultura jovem. Pode ser difícil de acreditar, mas há meros 50 anos os jovens (e sua maneira de pensar, suas idéias próprias e suas aspirações) não eram levados a sério pelos adultos de forma alguma. Ser jovem, nos anos pré-Elvis Presley, era apenas estar em um estágio irritante entre criança e o "homem feito", uma fase que devia passar o mais rápido possível e sem maiores dores. O que não quer dizer que os jovens não tivessem seus anseios e preocupações - que não eram infantis nem adultas - mas que eram ignoradas pelos mais velhos. O Apanhador, com seu relato sem retoques de tudo aquilo que realmente se passa na mente de um adolescente, ajudou a tornar a sociedade mais atenta à barra (às vezes, pesada) que é ser jovem.


Uma autora que nitidamente me lembra Salinger aqui no Brasil é a Lygia Bojunga. Mas esta fala dos anseios das crianças, que como qualquer ser humano também possui suas preocupações no dia-a-dia.


Mas voltando ao Apanhador, não deixe de lê-lo, mesmo que você já seja um adulto feito. E ao tê-lo em mãos, faça uma espécie de regressão mental e imagine-se jovem outra vez, como se tivesse a mesma idade de Holden Caufield. Será inevitável não encontrar semelhanças entre a vida dele e a sua, de muitos anos atrás, lembrando que Salinger  teve êxito nessa regressão, pois já tinha 32 anos quando escreveu sua obra. Mesmo sendo homem feito, soube mergulhar como ninguém no espírito jovem da época. Portanto, permita-se fazer o mesmo, especialmente se você é alguém que lida com jovens em seu dia-a-dia.


E descubra também o porquê do título do livro, já que a história se passa na cidade, não no campo...


Nota: alguns trechos, idéias e pontos de vista desta resenha foram retirados do texto de Marco Antonio Bart para este livro, no Site Scream & Yell. Clique AQUI e procure pelo texto deste autor na íntegra.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Hábito de leitura e gosto por livros



Nem sempre o hábito de ler e o gosto por livros caminham juntos.  Assim sendo, precisamos diferenciar o hábito da leitura do hábito de consumir livros.  A leitura é um ato do intelecto e, se bem desenvolvida, pode tornar-se uma fruição estética e espiritual.

Volta e meia são publicadas pesquisas falando dos hábitos de leitura do brasileiro. São pesquisas que denunciam os baixos índices de alfabetismo, as dificuldades econômicas de acesso aos livros ou a pouca cultura livresca do país. Mas tais informações nem é preciso ser brasileiro para conhecer: elas não chegam a surpreender e evidenciam o que muitos já sabem há muito tempo.

De fato, o cidadão brasileiro carece de tempo, dinheiro e interesse para ler, e tais carências muito prejudicam a formação, manutenção e incremento do hábito de leitura no Brasil. Entre os jovens, geralmente, há pouca disposição para freqüentar livrarias e consumir livros, e a média de livros lidos mensalmente entre leitores jovens e adultos é bem pequena, se comparada à de outros países.

A estas informações (que soam alarmantes para muita gente), somem-se todas as decantadas pesquisas, previsões, sondagens e especulações sobre o futuro do livro e seu provável fim enquanto objeto de leitura, e então temos perspectivas ainda mais sombrias. Diante de tal cenário, não é à toa que a Câmara Brasileira do Livro está implantando uma política para a promoção do livro nacional, a fim de estimular o gosto de ler entre os jovens e, conseqüentemente, o consumo de livros.

Números tristes ou interessantes à parte, acho que se faz necessário dissociarmos o hábito da leitura do hábito de ler livros, começando por diferenciar uma coisa da outra. Leitura é algo muito mais abrangente do que ler livros, vai além do simples ato de fazer varredura visual de letras sobre folhas de papel.

A leitura, enquanto processo humano em constante evolução, é atitude complexa. Requer uma pré-disposição específica para a compreensão do mundo que nos cerca. Ultrapassa a mera apreensão do significado literal de palavras, estando ligada ao desenvolvimento de uma postura pensante ativa, humanística e integralizante. Em poucas palavras, ler é educar-se.


Para cada pessoa, um tipo de leitura

A leitura é um ato do intelecto e, se bem desenvolvida, pode transformar-se em fruição estética e espiritual. Quem tem o hábito freqüente de ler não faz diferença quanto ao objeto de leitura. Tanto faz se é livro, bula de remédio, panfleto entregue pela janela do carro nos semáforos urbanos, revista de variedades na sala de espera do consultório médico, apostila técnica, site na internet ou e-mails no palmtop.

Quem tem por hábito ler não se importa se chove ou faz sol, se está escuro ou claro, se está na biblioteca, no banheiro ou no metrô. Não se importa se o texto está em papel ou na tela, se o que lê é livro ou computador. Quem se interessa por ler lê tudo o que lhe cai nas mãos - e isto não é apenas "chavão demodé", mas fato facilmente observável. Quem gosta de ler lê tudo e lê sempre, em qualquer circunstância, desde que sinta necessidade e/ou prazer para tanto.

Já o amor pelos livros é outra história. Há, sem dúvida, os aficcionados do texto de papel, que estremecem de emoção ao sentir o cheiro de livro novo, recém-saído da gráfica. Ou a emoção paradoxal de cheiro de livro velho, curtido em sebos de qualidade, esperando o folhear leve, típico do slow food... Roçar os dedos por folhas de papel de boa qualidade, ouvindo o estalar de páginas virgens de um livro ainda não lido, é um prazer estético. Gostar de livros é experiência sensorial - tátil, visual, auditiva, olfativa. Amar livros é uma experiência sinestésica quase sexual, tão relacionada que está aos sentidos e ao prazer extraído através deles.

Também não podemos nos esquecer daqueles que adoram tanto os livros que quase chegam a enquadrá-los, colocando-os como objetos de puro adorno em estantes, colecionando-os a metro. São pessoas que se extasiam com os livros enquanto objetos estéticos, extáticos, materiais, fetichistas até, independentemente de seu teor. Mas que, no entanto, não se interessam pelo seu conteúdo potencialmente dinâmico.

Por outro lado, conheço pessoas que lêem vários livros técnicos e de cunho estritamente profissional, impressos no velho e bom papel, que facilmente engrossariam a estatística de leitores e, no entanto, não lêem mais nada além disso. Até se irritam ao ouvir falar em livros fora do expediente ou dos bancos escolares. Aí eu me pergunto: será que podemos considerar essas pessoas efetivamente "leitoras"? Será que elas gostam mesmo de ler, têm a leitura como modo de vida, no sentido mais amplo? Ou seriam apenas leitores funcionais (fazendo-se uma analogia com os analfabetos funcionais), que até lêem, mas não estão acostumados a ler, a não ser quando absolutamente necessário?


Ler é educar-se

Eu, sem dúvida, estou incluída no rol dos que amam os livros e o texto impresso. Sou uma colecionadora de papéis de mão cheia e também adoro navegar sem pressa pelas estantes de livros, sejam elas de livrarias da moda ou estantes empoeiradas de sebos repletos de relíquias ou esquecimentos. Reverencio tanto as novas edições (ainda mais se são caprichadas edições de arte) quanto os livros antigos, que armazenam ácaros de segredo e saudade.

Confirmando o clichê, leio tudo o que me cai na mão. Todas as paixões legíveis me divertem. Entretanto, para mim há claramente uma distinção entre o ler, enquanto modus vivendi, e o gostar de livros, enquanto fixação amorosa ou hobby. Amar livros não é necessariamente amar a leitura; mas amar a leitura é, conseqüentemente, amar (também) os livros.

Falo por experiência própria. Sou uma leitora compulsiva, às vezes obsessiva, e o que me interessa sempre é o texto - não importa como ele venha. O que eu quero é o conteúdo, a mensagem. O suporte, a forma como ele é formatado ou embalsamado, é apenas um detalhe, uma questão transitória.

Insisto como importante esta distinção entre o hábito da leitura e o consumo de livros pois vejo como absolutamente necessário nos adaptarmos aos novos tempos e às novas tecnologias. Ao longo de toda a história do homem, antes e depois da criação da escrita, é assim que temos evoluído socialmente - engendrando novas formas de leitura e aprendizado através das tecnologias que fabricamos. E é assim que, desde os primórdios da comunicação humana, acostumamo-nos a ler e interpretar sinais de fumaça, toques de tambores, cantos de guerra, máscaras, pinturas corporais, tatuagens, papiros, pergaminhos, códices feitos do couro de ovelhas jovens, iluminuras medievais até chegarmos aos livros impressos pós-Gutemberg.

Da mesma forma, devemos hoje estar preparados para ler tanto livros de bolso e edições de arte & luxo quanto histórias em quadrinhos, revistas, jornais, outdoors, neons, painéis eletrônicos urbanos, grafites, programações televisivas, canções e trilhas sonoras, música ambiente, filmes, anúncios publicitários, telas de máquinas de raios catódicos ou de cristal líquido, telefones celulares ou quaisquer outros dispositivos híbridos móveis de comunicação telemática, e tudo o mais que apresentar algum conteúdo informativo a ser transmitido, não importa em qual formato ou suporte tecnológico ele se mostre.

Enquanto não diferenciarmos o hábito da leitura (enquanto estilo e paradigma de vida) do hábito de ler livros de papel; enquanto continuarmos insistindo em considerar leitores só aqueles que lêem "x livros/ano", numa abordagem meramente formal e quantitativa, continuaremos a assistir ao definhamento das estatísticas oficiais que indicam quantos são os reais leitores existentes.

Pois, se continuarmos nos portando desta forma míope, continuaremos a tapar o sol com as mãos diante do fato de que o universo da leitura é muito mais complexo e abrangente do que o universo letrado dos livros, e não seremos nós mesmos leitores-intérpretes honestos da realidade.
Enquanto não encararmos o fato de que hoje, parodiando o escritor brasileiro Monteiro Lobato, uma nação se faz de homens e leitura, não importa qual seja a fonte da leitura, não cumpriremos a missão cidadã de orientar as novas gerações de leitores que estão surgindo, pois estaremos negando um futuro prescrito que já se faz presente.


Para saber mais

Câmara Brasileira do Livro: http://www.cbl.org.br

Associação Brasileira de Editores de Livros - ABRELIVROS: http://www.abrelivros.org.br/abrelivros/

Amigos do Livro: http://www.amigosdolivro.com.br

Sobre Monteiro Lobato: http://www1.uol.com.br/folha/almanaque/monteirolobato.htm


Texto de autoria de Rosy Feros para o Site Recanto das Letras

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