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quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ministros do Brasil discutirão a implantação definitiva de tablets na educação dos brasileiros



O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, revelou na manhã do último dia 7, que encontrará os ministros da Educação, Fernando Haddad, da Ciência e Tecnologia, Aloísio Mercadante, e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, para discutir o uso dos tablets para a educação.

"Na viagem ao Uruguai com a presidente Dilma, coloquei a experiência da Coreia do Sul, que em 2014 já não vão mais oferecer livro didático impresso. Ela me pediu para procurar o Haddad sobre o assunto, e o ministro revelou que já tem iniciativas sendo discutidas por lá. Então, até a próxima semana, devemos nos encontrar", afirmou Paulo Bernardo.

Segundo Paulo Bernardo, mesmo antes de a presidente Dilma Rousseff assumir o cargo, já havia procurado ele para tratar dos tablets. "Nós não incluímos o tablet nas leis de isenção que beneficiam o computador com isenções porque ainda não existiam. Agora, já estamos incluindo ele. Mas precisamos de um plano abrangente para aproveitar essa tecnologia, não só na educação, mas em outras áreas também", afirmou.

Mas o ministro descartou que a proposta brasileira deva seguir a coreana, culminando com o fim das versões impressas. "Lá eles editam em pequenas quantidades só para as bibliotecas. Aqui, a condição é diferente, ainda há gente que prefere o livro. Mas com certeza haverá estudantes que terão seu primeiro contato com o livro didático em meio digital", disse.


Reportagem de Tiago Falqueiro, de Brasília, para o site G1.
07/06/2011.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Resenha: Lendas e Mitos do Brasil


O melhor do imaginário nacional

Lendas e Mitos do Brasil, de Theobaldo Miranda Santos, é o livro mais completo sobre histórias de nosso folclore que já li. Recomendo.

Esta "pequena grande obra", em tempos de criança e nas horas prazerosas dedicadas a biblioteca escolar, era uma das minhas favoritas do recinto, sendo lida e relida exaustivamente ao longo dos anos. A capa, inclusive, não era esta verde-amarela atual. Ela trazia, originalmente, um risonho e convidativo saci desafiando-nos a mergulhar de cabeça em todos os mistérios que o livro continha.

Aliás, contém. Dividido em cinco partes, Lendas e Mitos do Brasil traz aos leitores as lendas e mitos mais conhecidos e divulgados em cada uma das cinco regiões brasileiras: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, oriundas da sabedoria e das tradições de três povos distintos que deram origem a todos os brasileiros: os índios, naturais da terra, os negros, vindos da África e os brancos, que vieram de Portugal.

Portanto, na região Norte encontramos mitos como o da Iara (Mãe d'água), da Vitória-Régia, do Uirapuru, do Curupira, da Criação da Noite, do Japiim (pássaro que inclusive dá nome ao bairro onde moro), do Guaraná e muitos outras mais, de origem indígena.

Na região Nordeste já conhecemos então mitos de natureza mais européia, como o do Lobisomem, do Barba Ruiva, da Cidade Encantada, do Pecado da Solha, etc.

No Centro-Oeste, contos variados, destacando-se A Mula-Sem-Cabeça, A Origem das Estrelas, A Mãe do Ouro e a história terrível do Moleque Amaldiçoado (Romãozinho).

O Sudeste contribui com lendas de teor mais histórico, geralmente ligados às missões que os bandeirantes paulistas desempenhavam no período colonial brasileiro. Portanto, nesta parte você conhecerá O Filho do Trovão (Caramuru), A História de Chico Rei, O Segredo de Robério Dias,  lendas envolvendo milagres de São Sebastião e Nossa Senhora da Glória e muito mais.

Por fim, o Sul nos lega alguns de seus mitos mais populares, como o Boitatá, a história d'O negrinho do Pastoreio, o Nascimento das Cataratas do Iguaçu, as origens da Erva-Mate e um de seus mais populares, a Lenda do Lagarto Encantado (a Teiniaguá)

Adquira já o seu, caso aprecie histórias do tipo. A diversão será garantida para crianças e adultos, que juntos também ganham mais em saber e cultura relacionados à sua pátria-mãe.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Nossa Língua (VIII)


Mais curiosidades sobre algumas palavras da língua portuguesa


Ano-novo
Você sabia que a palavra Ano-novo pode significar duas coisas: a primeira delas é que pode ser sinônima de “Réveillon”, ou seja, o primeiro dia do ano. Para esse caso, escreve-se com hífen “Ano-novo”. O segundo significado é novo ano, ou seja, o ano que será transcorrido após o Réveillon. Para esse caso, escreve-se sem hífen!

Através de
A expressão ”através de” devia ser evitada como sinônimo de "por meio de, por intermédio de", uma vez que a maior parte dos dicionários não registraria a locução com este sentido. No entanto, o novo Dicionário Aurélio Século XXI (1999) já registra esta locução com o sentido de "por intermédio de", pois é uma expressão tão corrente e usual na língua que os próprios usuários modificaram seu sentido, cristalizando-o mesmo nos dicionários.

Como escrever horas?
O correto é 2h30min (abreviado) ou 2 horas e 30 minutos.
Escreva sempre meio dia e meia.
Use crase diante das expressões de tempo formadas por palavras femininas: Às 2h – à meia-noite – à tarde – à noite etc.

Religamento ou Religação?
Podemos usar as duas formas, dependendo do contexto, é claro!
Utilizamos Religamento como expressão masculina:
Ex.: Providenciarei o religamento de seu aparelho ainda hoje.
Usamos Religação como expressão feminina:
Ex.: Providenciarei a religação da sua internet amanhã.

Ância X ânsia
O certo é ânsia. Mesmo se a terminação “ância” normalmente é com “c”, como em constância, discordância, elegância etc.

Cabelereiro X cabeleireiro
O certo é cabeleireiro, porque a palavra primitiva é cabeleira, e não cabelo.

Quota X cota
Uma quantia determinada pode ser denominada cota ou quota. As duas formas estão corretas.

Acidímetro
Você sabia que há um instrumento para medir o grau de acidez de um líquido? Chama-se acidímetro.

Cachorro-quente X cachorro quente
Se estivermos nos referindo ao sanduíche temos que usar o hífen. Caso contrário estaremos comentando a temperatura do cachorro, cachorro mesmo!

Baragnose
“Ele sofre de baragnose.” Ou seja, é incapaz de sentir o peso dos objetos, de compará-lo com o de outros.

Bem-me-quer, malmequer
É assim mesmo. Bem-me-quer se escreve com hífens e malmequer se escreve tudo junto.

Baton X batom
Batom é a versão aportuguesada da palavra baton, em francês, portanto, está correta. As duas formas são usadas no Brasil.

Acedente X acidente
As duas palavras estão corretas. Acedente significa aquele que acede, ou seja, aquele que concorda. Acidente significa acontecimento imprevisto.

Chamarisco X chamariz
As duas palavras estão corretas e têm o mesmo sentido. Significam aquilo que chama, que atrai.

Aja X haja
Aja é uma forma do verbo agir e haja, do verbo haver. Observe o exemplo para não confundir mais: Aja com atenção para que não haja novos acidentes.

Algures X Alhures
Estes dois advérbios de lugar são pouco usados. Mas algures quer dizer "em algum lugar". Já alhures significa "em outro lugar".

Além-mar X Além mar
Além pede sempre o hífen: além-mar, além-fronteiras etc. 

O alface X A alface
Alface é substantivo feminino. Diga: "a alface está muito tenra". 

Se acaso X Se caso
Com a conjunção se, deve-se utilizar acaso, e nunca caso. O certo: "Se acaso o Brasil for campeão, eu vou...". Mas podemos dizer: "Caso o Brasil seja campeão, eu vou...". 

A princípio X Em princípio
A princípio significa inicialmente, antes de mais nada: Ex: "a princípio, gostaria de dizer que estou bem". Em princípio quer dizer em tese. Ex: "em princípio, todos concordaram com minha sugestão".

À medida que X Na medida em que
As duas expressões existem: À medida que significa à proporção que. Na medida em que equivale a tendo em vista que. O que não existe é a mistura dessas duas expressões: à medida em que. 

As custas X À custa
As custas só se usa na linguagem jurídica para designar despesas feitas no processo. Portanto, devemos dizer: "o filho vive à custa do pai", no singular.

Um dos que foi X Um dos que foram
Um dos que deixa dúvidas. Há gramáticos que aceitam o emprego do singular depois dessa expressão. Mas pela norma culta, devemos pluralizar: "eu sou um dos que foram admitidos"; "Sandra é uma das que ouvem rádio". 

Bem-vindo X Benvindo
Ainda se vê muito, principalmente na entrada das cidades, a expressão bem vindo (sem hífen) e até benvindo. As duas estão erradas. Deve-se escrever bem-vindo, sempre com hífen. 

A meu ver X Ao meu ver
O certo é a meu ver e não ao meu ver. 

Afim X A fim de
Afim tem relação com afinidade: gostos afins, palavras afins. A fim de equivale a para: "veio logo a fim de me ver bem vestido". 

Vice-prefeito X Vice prefeito
O prefixo vice deve ser sempre separado por hífen da palavra seguinte: vice-prefeito, vice-governador, vice-reitor, vice-presidente, vice-diretor etc. 

Subsídio: S ou Z?
É comum ouvirmos no rádio e na TV o entrevistado dizer: "O que nos falta são subzídios". Quer dizer, fala com a pronúncia do z. Mas não é: pronuncia-se ss. Portanto, escreva subsídio e pronuncie subssídio. 

Retificar X Ratificar
Não se esqueça: retificar é corrigir, e ratificar é comprovar, reafirmar: "Eu ratifico o que disse e retifico meus erros". 

Pôr X Por
Pôr só leva acento quando é verbo: "Quero pôr tudo no seu devido lugar". Mas se for preposição, não leva acento: "Por qualquer coisa, ele se contenta". 


Fonte consultada: Fórum Amigos do Noivo.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Poesia (X)


A Solidão e sua Porta


Quando mais nada resistir que valha

a pena de viver e a dor de amar

E quando nada mais interessar,

(nem o torpor do sono que se espalha).

Quando, pelo desuso da navalha

a barba livremente caminhar

e até Deus em silêncio se afastar

deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida

do mundo que te foi contraditório,

lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório

e de que ainda tens uma saída:

entrar no acaso e amar o transitório.


[Poesia do poeta pernambucano Carlos Pena Filho, retirada de sua antologia Poemas e escolhida por mim. Ilustrando o post, uma de suas raríssimas fotografias, com a filha Clara Maria, por volta dos anos de 1960.]

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Resenha: Aos meus amigos


Amizade à flor da pele

Eis um livro inusitado e ao mesmo tempo fascinante de se ler. Aos meus amigos, de Maria Adelaide Amaral, conta a história do reencontro de uma turma de antigos amigos, onde passado e presente se misturam em cada diálogo, mostrando que viver é fazer uma série de escolhas. 

O livro inspirou a minissérie Queridos Amigos, também exibida em 2008 na TV Globo, também assinada pela autora. A história do romance, baseada em fatos reais de sua vida, se articula em torno de um suicídio, o do escritor e publicitário Leo (inspirado na morte real de Décio Bar, amigo da escritora, a quem o romance é dedicado).  É o suicídio deste personagem que, no agitado ano de 1989 (frente ao impeachment de Fernando Collor da presidência do Brasil), mobilizará a retomada da 'velha turma', que reviverá, intensamente, os ideais da esquerda nos anos da ditadura militar brasileira (1964-1985). Um reencontro feito também de desencontros, inclusive políticos.

Outrora, os amigos apenas se encontravam em ocasiões festivas ou de protesto. Agora,  reúnem-se para velar o corpo de Leo e tentar manter viva sua memória, enquanto procuram com certa ânsia os originais de um livro que ele teria deixado e que retratava cada um deles.

Aos meus amigos é ágil, mais baseado em diálogos do que em descrições, e retrata fidedignamente o tema amizade, em todas as suas nuances, sejam elas boas ou más. Portanto, prepare-se para lidar com um turbilhão de emoções que envolvem não só amor e carinho, mas sentimentos concretos como inveja, ciúme, paixões mal-resolvidas, preconceito, medos, arrependimentos e demais coisas que giram em torno desse grupo de aproximadamente dez amigos, formado por jornalistas, escritores, médicas, ex-modelos, professores, hippies... Os fatos e personagens são construídos e reconstruídos constantemente por meio de referências e reminiscências, como nas conversas reais que temos com nossos próprios companheiros de amizade.

Isso sem contar a aula de literatura, música e cinema, pois muitas são as referências pop na obra. E quem gosta do assunto, terá um verdadeiro prato cheio à sua frente. Não assisti a minissérie completamente pela TV. Mas confesso que ao ler o livro, fiquei com vontade de fazer isso. Pelo pouco que vi, notei que existem grandes diferenças entre um e outra. Preciso logo resolver essa lacuna.
Quanto aos demais, não deixem de ler ao menos esse livro. Se você possui um grupo grande de amigos como o de Leo, provavelmente se identificará com algumas de suas passagens e situações. Recomendo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Nossa Língua (V)



Mais algumas curiosidades. Vamos a elas?

O mundo está cheio de matanças, mas há algumas diferenças entre elas: o filho que mata o pai comete um parricídio. O filho que mata a mãe comete um matricídio. Os pais que matam o filho cometem um filicídio. A mulher que mata o marido comete um mariticídio. E o marido que mata a esposa comete (que horrível) um uxoricídio.

Para cada realidade concreta existe uma palavra adequada. Quando um avião desce no aeroporto, aterrissa ou aterriza. Quando o hidroavião pousa no mar, amerissa. E quando uma nave pousa na lua, alunissa ou aluniza.

É bom saber que algumas palavras do nosso vocabulário vieram do francês e, embora possamos usá-las tranqüilamente, possuem correspondentes exatos no português. Para ateliê temos oficina; para complô temos conspiração; para menu temos cardápio; e para omelete temos fritada de ovos. Uma rara exceção é abajur, que foi aportuguesado do francês abajour.

Hoje, há quem diga que precisamos falar politicamente correto, evitando expressões racistas como: ele judiou de mim, a coisa tá preta ou você está denegrindo minha imagem. Até os brancos começam a se revoltar quando ouvem o vestibulando reclamar: Xi... me deu um branco! 

A distinção entre hora e horário é delicada, mas real. Hora pode ser definida como a 24ª parte de um dia inteiro ou como um período de 60 minutos. Já horário (tanto substantivo como adjetivo) refere-se a um período com mais de 1 hora: horário do ônibus, horário nobre, fuso horário, carga horária. Uma comparação: calendário é o período de dias, palavra proveniente de calendas que, em latim, era o primeiro dia do mês.

Falar e dizer não são sinônimos. Quem fala, fala bem, fala muito, fala com alguém, fala diante dos outros. Já quem diz, diz a verdade, diz o que pensa, diz besteira, diz o que não deve. Falar tem a ver com o ato da fala. Dizer tem a ver com o conteúdo expresso por aquele que fala. Falou?

Existe uma doença que admite os quatro usos que médicos e pacientes fazem dela: a diabete, a diabetes, o diabete e o diabetes. Por outro lado, no caso da palavra terminada em s, o adjetivo que lhe segue fica no singular: diabetes insípido, diabetes melito, diabetes sacarino ou diabetes sacarina.

Li, certa vez, numa placa: "É proibida a instalação de autofalantes." O ouvido doeu. Não tanto pelo medo de ouvir alguém gritando pelo alto-falante, mas por imaginar como alguém poderia fazer o casamento entre um automóvel e um falante, que ainda por cima era proibido instalar.

A prosódia indica-nos a maneira certa de pronunciar as palavras, levando em conta a sua tonicidade, conhecimento que ajuda a grafá-las corretamente. Rubrica fala-se rubrica, com o i tônico, mas não acentuado. Ruim é ruim, com i tônico, mas não acentuado. Maquinaria é maquinaria, com i tônico mas não acentuado. E pudico fala-se pudico mesmo, com i tônico, e esse i também não é acentuado.

Metonímia é uma figura de linguagem em que se usa uma palavra no lugar de outra, estando as duas estreitamente relacionadas. Quando eu digo que a novela está sem ibope trata-se de uma metonímia, porque ibope é a sigla do Instituto Brasileiro de Opinião Pública, e o que a novela não tem mesmo é audiência, cujo índice, aí sim, é calculado pelo Ibope.

Às vezes falamos com imprecisões de sentido, e valeria a pena caprichar. Por exemplo: febre alta. Na verdade, toda febre é temperatura alta.Febre baixa, pelo menos na medicina gramatical, também não existe. Outro exemplo: tirar a pressão. Se uma enfermeira tirar a minha pressão sangüínea eu morro na hora. É bem melhor pedir-lhe para medir a pressão.

Hoje é hoje. Amanhã é depois de hoje. E depois de amanhã (sem hífens) é daqui a dois dias. E como voltar para o passado? Ontem foi antes de hoje. Antes de ontem é anteontem. E antes de anteontem? Trasanteontem. Por incrível que pareça.

Depois do décimo carneirinho, podemos contar, sem hífen: décimo primeiro, décimo segundo. Depois: vigésimo, vigésimo primeiro, vigésimo segundo, também sem hífen. Depois: centésimo, centésimo primeiro... também sem hífen. E se a insônia for longa, milionésimo, bilionésimo, trilionésimo primeiro, trilionésimo segundo... e boa-noite!

O vocativo é a palavra que serve para chamar alguém ou um animal. Se estiver no meio da frase, vem entre vírgulas. Se estiver no início, põe-se uma vírgula depois. Se vier no final, põe-se uma vírgula antes. Vejamos: José, e agora? E agora, José? Mas, José, e agora?

Na frase acima, a palavra melhor pertence a três categorias gramaticais diferentes. O melhor (substantivo), se for melhor (adjetivo), melhor (advérbio) viverá. Deles, o último é invariável. A frase no plural fica assim: os melhores, se forem melhores, melhor viverão.

Como tratar pessoas que ocupam cargos importantes? Um cardeal é Vossa Eminência. Um ministro é Vossa Excelência. Um prefeito também. Um reitor é Vossa Magnificência. Um padre é Vossa Reverendíssima. Um gerente de banco é Vossa Senhoria. Um coronel também. E o papa é Vossa Santidade. Se estamos acostumados a chamar todo mundo de você, é melhor mudar de hábito...

Até no açougue é preciso falar bem. Quando queremos comprar a parte traseira acima das coxas do animal, devemos pedir alguns gramas ou mesmo um quilo de coxão. Trata-se do aumentativo de coxa. Há quem fale colchão, mas isso já é conversa pra boi dormir.

O que comemoramos no dia primeiro de maio? Quem respondeu o Dia do Trabalho, deveria trabalhar em dobro nesse dia. Comemoramos o Dia do Trabalhador, em analogia com outras datas ao longo do ano em que lembramos o jornalista, o médico e a secretária. Esse feriado nasceu para homenagear operários mortos durante uma passeata no dia 10 de maio de 1889, em Chicago.

Vários nomes que, no singular, possuem na sílaba tônica um o fechado - povo, poço, glorioso e olho - no plural experimentam mudança de timbre. As palavras povos, poços, gloriosos e olhos são pronunciadas com o o aberto. É o caso também de novos, porcos e coros. Este é um exemplo de apofonia. E como toda a regra tem a sua exceção, gostos, tronos e bolsos têm o o tônico fechado.

O uso contínuo de uma expressão errada torna o erro invisível. Poucos vêem o equívoco de usar a palavra penalizar no sentido de punir e castigar. É comum ouvirmos, por exemplo: os jogadores foram penalizados com a expulsão. Penalizar, na verdade, significa causar dor e tristeza. Ele ficou penalizado (ficou triste) ao ver a expulsão dos jogadores. O certo, então, é mudar o verbo da frase anterior, e escrever assim: os jogadores foram punidos com a expulsão. 

Várias palavras, no plural, adquirem significados diferentes. Ouro, no singular, é o metal precioso. Ouros, no plural, é um dos naipes das cartas do baralho. Bem é o contrário de mal. Bens são as propriedades que uma pessoa tem. Letra é um caractere do alfabeto. Letras é o curso universitário. Liberdade é o poder de escolher. Liberdades é quando a moça repreende o rapaz apressadinho: - Vamos parar com essas liberdades?

No mundo da diplomacia, um deslize verbal pode abalar o relacionamento entre dois países. Jamais devemos chamar uma embaixadora de embaixatriz. Ambas as palavras fazem o feminino de embaixador. Porém, a diferença entre uma e outra é imensa: embaixadora é a mulher que ocupa o cargo mais elevado numa embaixada, e embaixatriz é apenas... a esposa do embaixador.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Trecho + Resenha


"Cada par copiava um mesmo trecho de prosa e vencia o aluno que apresentasse a letra mais bonita. O prêmio que se lhe dava era meter-lhe na mão a palmatória para que castigasse o vencido com uma dúzia de “bolos”. O professor chamou o meu nome e o nome do Doca. Aproximamo-nos da grande mesa. Eu tremia. Durante três minutos o velho examinou e comparou as duas escritas. Depois disse:
As duas letras são bem parecidas. Não se pode dizer que uma seja melhor do que a outra. Ambas são boas.
E lançou o julgamento:
“Empate”.
Respirei livremente.
O professor entregou-me a palmatória.
“Para que isso?”, perguntei.
“Para que há de ser?”, disse-me. Os dois não empataram?”. Você dá seis ‘bolos’ nele, e ele lhe dá seis ‘bolos’”.
Achei aquilo um disparate. Olhei o velho com surpresa.
“Que é que você está olhando?”, roncou ele asperamente.
A minha língua travou.
“Não posso compreender isso!, exclamei. Por que houve empate? Porque o Doca tem letra boa e eu tenho letra boa. Então quem tem letra boa apanha?”
João Ricardo ergueu-se da cadeira com um berro.
“Não quero novidades! Sempre e sempre foi assim. Atrevido! Quem é aqui o professor?
E entregou a palmatória ao Doca."

[Trecho de Cazuza, Viriato Corrêa]


Não é novidade para ninguém que no dia 15 de outubro, no Brasil, comemora-se, (aparentemente) o dia do professor.

Enfatizo o aparentemente porque como ex-membro da categoria, percebo que a cada dia que passa, os mestres desta nação têm muito pouco a comemorar, seja por conta de salários irrisórios que recebem por aulas dadas, ou por conta das inúmeras dificuldades que passam no exercício diário de sua profissão, onde, cada vez mais e com maior freqüência percebemos os mesmos tornando-se reféns de situações bizarras e absurdas que põem em risco tanto as suas reputações como profissionais quanto suas próprias vidas, quando geralmente têm de lidar com alunos problemáticos que são oriundos de núcleos familiares desestruturados que cada vez mais pipocam Brasil afora.

O fato é que o descaso das autoridades com a educação, setor que deveria ser tratado com alta prioridade neste país, está cada vez mais notório. Outrora uma profissão de status na sociedade, hoje em dia quase ninguém deseja tornar-se mais professor, o que não deixa de ser uma grande lástima. Penso que se um dia este país realmente deseje mostrar ao mundo que é desenvolvido, merecendo figurar entre os melhores do mundo, deve priorizar não só suas diretrizes educacionais, mas também valorizar ainda mais os profissionais que trabalham nas linhas de frente deste segmento, ou seja, os seus mestres.

Realmente são poucas as pessoas de hoje que (como nós um dia já idealizamos) abraçam com fervor a vontade e o desejo de exercer a profissão, possivelmente alimentando também no peito o secreto desejo de tornar o mundo um lugar melhor, seja proporcionando seus conhecimentos ou suas lições de vida a futuros cidadãos brasileiros ávidos por saber. Também são poucos os exemplos de profissionais em que professores aspirantes podem se espelhar, por conta deste caos instituído e enraizado no meio educacional, já que muitos mestres do agora não são nem a sombra de muitos que já existiram nos tempos de outrora, especialmente os de nossa época de estudantes, modelos irrepreensíveis com os quais convivemos em nossa vida escolar e que de certa forma nos influenciaram em nossas escolhas da vida. Isso sem mencionar aqueles que também conhecemos através de filmes como "Sociedade dos Poetas Mortos", canções como "To Sir With Love" (Lulu) e principalmente por meio dos livros que um dia lemos.

E aproveitando o gancho da data, como uma forma de homenagear os mestres do país, resolvi que hoje  o trecho e a resenha inéditos que posto aqui no blog estão relacionados aos professores, em especial com alguns modelos que conheci ainda na infância, ao ler certo dia, um livro aparentemente simplório chamado Cazuza, de um autor que, na época, jamais tinha sequer ouvido falar antes: Viriato Correia.

Segundo sua biografia, o maranhense Viriato foi professor, jornalista, contista, romancista, teatrólogo, dramaturgo, autor de uma série de livros infanto-juvenis e membro da Academia Brasileira de Letras. Com seu único romance de destaque, “Cazuza”, o escritor faz uma crítica à escola do início do século, que ainda conservava o ranço do Império, ou seja, o modelo ultrapassado onde os alunos, em classe, apenas ouviam a voz do professor e nada opinavam, principalmente em estabelecimentos de ensino de pequenos vilarejos espalhados pelas cidades do interior. O docente, portanto, nesta época, constituía a única pessoa na sala com o poder absoluto da palavra. Só ele falava e as crianças apenas ouviam e copiavam suas lições, no mais completo silêncio. Se porventura respondessem de forma errada ou dessem um passo em falso, eles, os alunos, apanhavam, como o que acontece com o protagonista, que acaba ficando com mãos inchadas e sangrentas em uma das passagens mais dramáticas da obra.

Cazuza foi lançado no Brasil em 1938 e segundo Viriato, em prévia introdução ao texto, se trata de um romance autobiográfico de um estranho que o autor conhecia apenas de vista e do qual jamais soube o nome verdadeiro. Ressalta ainda que recebeu em mãos os originais do misterioso indivíduo em sua casa e depois disso nunca mais teve notícias do sujeito, que na vizinhança era conhecido apenas por seu apelido, Cazuza, uma alcunha tipicamente brasileira e bastante comum entre as crianças da época e do lugar onde ele vivia, a região Nordeste do Brasil.

Basicamente, o livro narra as doces e amargas experiências escolares do misterioso Cazuza, desde seus primeiros anos escolares, onde é alfabetizado por João Ricardo, o cruel e autoritário professor da escola do povoado onde o garoto nasceu passando depois pelos cuidados da maternal Dona Neném quando este se muda para a Vila. Por fim, a narrativa nos leva até os dias de Cazuza como aluno interno em um colégio da capital do Estado, São Luís, convivendo assim, nesta breve passagem de sua vida, com tipos humanos bastante distintos, entre professores e alunos, facilmente divididos entre pessoas cativantes e inesquecíveis e pessoas, infelizmente, intoleráveis e repugnantes.

Mas, mesmo não sendo o autor real do livro, que transborda de carisma e simplicidade, Viriato ajudou a criar um belo romance sobre o processo de crescimento físico e amadurecimento emocional de uma criança por meio de suas impressões pessoais no meio acadêmico, focando sempre em uma visão crítica sobre a pedagogia do antigamente, onde castigos físicos impostos aos estudantes e outras práticas abomináveis de disciplina rígidas eram adotadas por muitos estabelecimentos educacionais, especialmente os da década de 30, quando o Brasil se encaminhava para as políticas do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Foi nesse contexto político e ideológico que o livro Cazuza foi elaborado. Destinado às crianças, a obra traz, em um tom fortemente didático, questões que envolvem a moral e o enaltecimento de virtudes, que devem a todo custo ser seguidas, tais como a tolerância, a generosidade, a obediência, o respeito e a piedade, da mesma forma como o repúdio aos vícios, sendo os principais a mentira, a soberba, o autoritarismo, além, claro da exaltação máxima ao amor pela família, célula que precisa que naquela época precisava ser mantida, pois era em seu seio que se iniciava a formação do cidadão, posteriormente lapidado pela instituição escolar.

Recomendo Cazuza com louvor. Para quem é ou foi aluno ou para quem é ou deseja ser um professor. No caso dos pequenos, sua leitura é indispensável para a formação moral das crianças, pois traz questões que envolvem o cultivo das virtudes. E para os adultos, revela o papel da escola como um agente de formação e não de repressão do cidadão, mesmo mostrando os dois lados da moeda.


Observação: embora a grafia do nome do autor seja Corrêa na capa do livro, enfatizo que a forma correta é Correia, de acordo com o site da Academia Brasileira de Letras.
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