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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Poesia (IV)


Eu sei que a primavera já começou a alguns dias, que estou atrasado e que na região em que vivo ela não é uma estação bem definida. Aqui, ela acontece geralmente em maio, na transição da estação úmida para a quente e é chamada pelas pessoas de primavera matuta.

Mas por estes dias vi tantas pessoas exaltando a sua chegada no hemisfério sul que eu não poderia deixar de fazer uma menção a ela por aqui. Por isso, resolvi proporcionar aos meus leitores e seguidores um momento poético onde ela, a estação das flores, é a soberana.

É primavera!

Já secou o chão molhado, tão escorregadio;
Refez-se o amor que o orgulho decompusera;
Passou a noite medonha, a enxurrada, o frio;
Vejam só que maravilha: chegou a primavera!

E esse cheiro tão bom de mato verde no ar;
A manhã que acorda e em matizes exubera;
As águas, os pássaros, as cigarras a cantar;
Ah! Eu nem preciso adivinhar: é a primavera!

Enxugou-se a lágrima, agora há riso, perdão;
Nada mais me tira do sério, nem me exaspera;
Mais verdade em meus dias, mais compaixão;
Mais perfume, mais luz: bem-vinda, primavera!

Agora a esperança sobrepuja os servis temores;
Nenhum presságio de morte de mim se apodera;
Que me encham os olhos e a alma de mil amores;
Porque aqui dentro do peito também é primavera!


Poesia de Lídia Vasconcelos e foto de Fabio Pignatelli 
(campo de flores nos arredores de San Giorgio Ionico, Taranto, Itália).

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Poesia (III)


Batizada originalmente com o pomposo nome de Flor Bela de Alma da Conceição, Florbela Espanca (1894 - 1930) foi uma poetisa portuguesa ímpar, nascida em uma pequena vila do Alentejo. Durante trinta e seis anos, sua vida foi tumultuada, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotismo e feminilidade. 

Hoje compartilho com os leitores do blog uma poesia de Florbela, especialmente  escolhida  pela minha amiga Nathália Paccola, de Indaiatuba, SP. Trata-se de "A mensageira das violetas", que pode ser encontrada em uma antologia homônima, publicada recentemente pela editora Martin Claret.


A mensageira das violetas


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui…além…
Mais este e aquele, o outro e toda a gente….
Amar!Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar.
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar…


Apreciaram tão delicada poética? Procurem então pelas obras de Florbela nas melhores livrarias. Até a próxima!
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