I made this widget at MyFlashFetish.com.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Poesia (XIII)


Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo. 

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão. 

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira. 

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta. 

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente. 

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem. 

Traduzir uma parte
na outra parte
 que é uma questão
de vida ou morte 
será arte?


 [Ferreira Gullar. Poesia retirada do livro Na Vertigem do Dia, 1980]

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Trecho selecionado (XII)


"Antigamente todos os contos para crianças terminavam com a mesma frase, e foram felizes para sempre, isto depois de o Príncipe casar com a Princesa e de terem muitos filhos. Na vida, é claro, nenhum enredo remata assim. As Princesas casam com os guarda-costas, casam com os trapezistas, a vida continua, e os dois são infelizes até que se separam. Anos mais tarde, como todos nós, morrem. Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre."


[Trecho de O Vendedor de Passadosde José Eduardo Agualusa]


Dedicado ao amigo Valdenir Andrade, de São Paulo, SP.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Leitura e saúde - Parte I


Hoje e nas próximas terças-feiras (num total de três) trataremos excepcionalmente aqui no Pérolas a respeito dos benefícios que o hábito da leitura pode trazer à saúde dos indivíduos. Nesta, abordaremos a questão preventiva, ou seja, ações que podem ser feitas para a prevenção de doenças; na próxima, a questão terapêutica, relacionada ao tratamento de doenças e, finalmente, na última, sobre um hábito de um grande número de pessoas que é pouco recomendável pelos médicos (envolvendo a leitura, claro).

Interessou-se pelo assunto? Vamos a ele então.

O hábito de ler proporciona muitos benefícios à saúde, segundo reportagem do portal R7. A leitura ajuda a reduzir o estresse e estimular a memória. Sua prática age como uma musculação para o cérebro e os médicos recomendam que se leia um livro por mês.


Ao acompanhar um texto, exige-se do cérebro um conhecimento dos sistemas de linguagem, obrigando o leitor a realizar um trabalho ativo de compreensão e interpretação de texto. E isso ajuda a manter a funcionalidade intelectual ao longo da vida, mantendo a mente ativa e prevenindo déficits de memória e declínios das funções cognitivas.

O ato de ler envolve quatro processadores: o processador ortográfico, que diz respeito à maneira de escrever as palavras; o processador de palavras refere-se ao sentido de uma palavra; o processador fonológico refere-se à unidade menor que forma uma sílaba ou uma palavra; e o processador de contexto que se refere à sintaxe, ao papel de cada palavra numa frase, formando uma estrutura com um significado maior que a palavra, desenvolve noções lingüística e regras gramaticais.

Estudos mostram que hábeis leitores não necessitam mais do processador fonológico para entender o significado de uma palavra escrita. Já maus leitores apresentam dificuldades nos processadores visuais e/ou auditivos, cometendo distorções, inversões, trocas e omissões, as chamadas dislexias. Conforme os tipos de dislexia, estudos mostraram lesões nas áreas, occipital, temporal ou ainda parietal.

Impressionado? Caso não tenha o hábito de ler pelo menos um livro ao mês, comece a cultivá-lo. Como vimos neste post, será para seu próprio bem.

Na próxima terça, saberemos um pouco mais sobre o tema Biblioterapia. Não percam!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Resenha: Patty Diphusa


Uma personagem que já nasceu ícone

É bom não ficar chocado: Patty Diphusa, personagem que ‘estrela’ este livro é uma atriz pornô de origem hispânica que é conhecida no mundo inteiro, seja por sua peculiar efusão em meio às pessoas, pela sua volúpia ou simplesmente por seu talento para a 'coisa'.

Neste segundo livro de Pedro Almodóvar publicado no Brasil, vemos a excêntrica Patty relatando suas memórias devassas a uma revista pós-moderna, a convite do próprio editor, um fã inveterado de suas ‘obras’. E contando suas experiências mais íntimas, a personagem reflete sobre a cena de Madri na década de 1980, regada a muito sexo e drogas.

Os mais puritanos talvez não gostem do ritmo frenético que Patty dá a sua vida, esteja ela metendo-se em encrencas com sua inimiga declarada Ana Conda, aconselhando suas ‘melhores’ amigas, a gorducha Addy Posa e a inexpressiva Mary Von Ética, ou até em momentos íntimos, ternos e calientes com o misterioso taxista Lúcio, com o qual vive topando pela cidade e pelo qual nutre uma ‘paixãozinha secreta’. Porém, quem é fã de Almodóvar facilmente se afeiçoará facilmente a esta personagem de ilimitada alta voltagem, já que na verdade Patty vem a ser um alter ego de seu próprio criador.

Livro de estréia de Almodóvar em terras espanholas, Patty Diphusa foi publicado originalmente como uma deliciosa série de contos na revista espanhola La Luna e, para a alegria de seus fãs, revela o tom erótico, vertiginoso e transgressor que vemos em suas películas. Eu, particularmente, arrisco até a dizer que Patty lembra muitíssimo a personagem de Carmem Maura em ‘A Lei do Desejo’.

Por fim, se você deseja conhecer a vertente de escritor de Almodóvar, procure esta obra na livraria mais próxima. Embora eu tenha gostado mais de ‘Fogo nas entranhas’, o outro livro dele lançado em terras tupiniquins, já resenhado aqui, acredito que este também seja um item indispensável a sua biblioteca, seja você fã ou não do controvertido e talentoso cineasta espanhol.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Frase (XV)


"Amar a leitura é trocar horas de fastio por 
horas de inefável e deliciosa companhia." 

[John Fitzgerald Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos]

Resenha: A vida secreta dos grandes autores


O que nossos professores de literatura nunca contaram 
sobre romancistas, poetas e dramaturgos em suas aulas

Você já deve, em algum momento de sua vida, ter imaginado como é a vida do autor que você mais gosta ou admira, não é?

Confesso que muitas vezes já devaneei sobre alguns deles. Já visualisei J. K. Rowling aproveitando os confortos de sua mansão milionária, Neil Gaiman caminhando por florestas buscando inspiração para seus livros e até  Suehiro Maruo visitando suspeitíssimos clubes de sadomasoquismo.

O caso é que quase sempre os chamados 'leitores vorazes', aquelas pessoas que gostam mesmo de ler estão às voltas com a vida pessoal de algum escritor favorito seu, ora imaginando-a cheia de glamour, ora achando-a pacata e tediosa até demais, especialmente quando o autor é daqueles que levam bastante a sério o seu compromisso de escrever, priorizando mais o verbo trabalhar e menos o verbo divertir em suas vidas, por conta de uma série de compromissos a cumprir.

Entretanto, eles são pessoas comuns como todos nós, ou seja, são essencialmente seres humanos, dotados de qualidades e defeitos. E a função deste livro de Robert Schnakenberg, ilustrado magistralmente por Allan Sieber (praticamente um co-autor) é tentar desmistificar estes seres que tanto amamos ou admiramos, mesmo conhecendo-os apenas superficialmente.

A vida secreta dos grandes autores, é um livro bastante agradável e de fácil leitura que mostra resumidamente os defeitos, as fraquezas e as fragilidades humanas sobre as quais nunca se falou a respeito de grandes nomes da literatura mundial, escolhidos criteriosamente pelo autor, como Virginia Woolf (que escrevia seus livros em pé), Franz Kafka (que tinha fama de nudista), Agatha Christie (que odiava seu personagem mais querido do público, Hercule Poirot) e muitos outros mais.

Curioso(a)? Eu também fiquei bastante intrigado com as informações que o livro poderia me legar. Embora os relatos contidos nele sejam bastante superficiais, não citando fontes e soando mais como uma compilação de boatos, Robert Schnakenberg conseguiu despertar meu interesse de leitor e fã de determinados autores, imaginando se não haveria um pouco de veracidade nestas informações. É um livro para se ler de uma só sentada, mais como forma de diversão do que informação.

Por fim, as únicas ressalvas que faço à obra além da sua superficialidade são suas notórias lacunas quanto à escolha dos autores 'investigados', que muito limitada, deixou de fora nomes mais recentes da literatura e escritores de língua portuguesa ou qualquer outro idioma que não seja o inglês, o francês, o espanhol e o alemão.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Resenha: Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor)


Coletânea de preciosidades

Este livro representa uma dupla surpresa para mim. Primeiro porque chegou até mim sem que eu o esperasse, dado de presente por uma amiga querida de Brasília, a Luíza, ainda por cima autografado pelo próprio autor, José Rezende Jr. Segundo porque, embora breves, cada conto lido foi uma experiência gratificante.

Os contos de Eu perguntei pro velho se ele queria morrer são belos, inusitados e inquietantes. Com jogos de linguagem precisos e imagens marcantes o autor constrói seus doze contos com uma prosa simples e sofisticada. Entre eles destaco o que dá nome ao livro, um embate dramático e definitivo entre um filho adotivo e seu pai moribundo, "Quase nada", que lembra um pouco a narrativa do escritor Graciliano Ramos em seu romance mais famoso, Vidas Secas, pois se passa no sertão nordestino"Vida, morte e assunção de Nossa Senhora", sobre uma companhia de teatro que viaja em caravana Brasil afora e que possui uma atriz principal que desperta paixões inusitadas por onde passa, mesmo não sendo uma beldade do cinema e da televisão e "Um conto de horror", talvez o mais eletrizante de todos, que nos fala do dilema de uma mãe em relação a um filho que não sente mais como seu.

José Rezende Jr. escreve bem, é versado nos fatos do cotidiano e demonstra possuir todos os elementos para ser reconhecido como um dos maiores contistas da atualidade. Faço votos que sua carreira literária seja longa, proveitosa e gratificante.

Por fim, aconselho a leitura deste seu livro, o segundo de muitos dele, aos leitores do blog. Procurem-no e leiam cada uma de suas linhas, pois trata-se, justificando o título da resenha, de uma coletânea de preciosidades.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...